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Thursday, 4 January 2018

Á-À! Agora é que são elas!

grafismo da revista L'Architecture d'Aujourd'hui

Trago à tua atenção um caso agudo e também grave.

 

Melhor dito, um caso de á (acento agudo) e de à (acento grave).

 

ás é o nome da carta mais valiosa de um baralho na maior parte dos jogos, ou é mais do que uma primeira letra do alfabeto: á, bê, cê, dê; ás, bês, cês, dês… Vês?

 

á não existe na língua portuguesa de forma isolada, excepto no caso de se estar a escrever por extenso a primeira letra do alfabeto.

 

à ou às são preposições para horas, direcção, sentido ou acção, usadas de forma isolada à excepção de quando se funde com pronomes como àquelas, àqueloutros.

 

A origem grave deste à parece ter sido a forma económica de juntar vogais idênticas. Por exemplo, sempre que tínhamos dois ás seguidos, em lugar de dizer ou escrever a a, dizíamos ou escrevíamos à:

 

Vou virar a a esquerda – à esquerda.

 

O sino tocará a as doze horas – às doze horas.

 

Tens que dar atenção a aquelas senhoritas – àquelas senhoritas.

 

Nada disso seria necessário se a nossa língua não pedisse tanto o artigo definido. Olha ela aqui a pedi-lo de novo!

Tuesday, 27 September 2016

Rua da Betesga

Ele há um fado que pede 
"Lisboa, não sejas francesa." 

Nunca entendi essa letra
que pela negativa reclama
retorno a uma portugalidade.

Se bem que não há regra
que diga que o que se cante
tem que fazer sentido,
e o autor, na onda da rima,
é arrastado por uma corrente,
e pode embater numa rocha,
quebrando o crânio, criando
vacuidade no derrame.

Contudo, naquela madrugada,
metidos num esconso com vista
sobre os telhados do Rossio
e os da Praça da Figueira,
avistámos dessa betesga a pinta,
e ela disse, "Parece Paris."

E foi, nesse ver finalmente a face
dessa Lisboa afrancesada,
e por vírus a espirrar obrigado, 
e sem me poder assoar no momento, 
que pinguei. Também do nariz.    

Monday, 26 September 2016

Suspenso


Leda e o cisne, de Botero
Se a vida é manutenção,
manutenção, manutenção,
manutenção,
eis a pura razão para deixar um momento
quieto no tempo, não o repetindo,
não buscando a repetição.





Sunday, 18 September 2016

Pela biblioteca horizontal

Toda a criança e todo o vizinho
proibido de ruído para além duma tosse
tímida, reclinados numa chaise longue,

de psicólogo na mão, por vezes psiquiatra,
feitos de frágil papel e tinta desvanecente,
de si próprios palrando em surdina,

berrando em surdina, em surdina rindo,
e assim sussurrando beatificamente,
bestas, belos, bobos, quase todos.

Estar sentado é posto de trabalho;
deitado deve ser o absorver do etéreo
enredo em cada livro contido.

Logo, nesse derramar de deleite divino,
a cadeira não tem postura para a literatura.

Lombo dorido, fora! Venha a chaise longue!  


Thursday, 1 September 2016

From close to closure - a toast

"I'm emotionally crazy right now," saía da rádio que poluía a esplanada ribeirinha onde fui tomar o vodka com laranja natural -- três euros, é um preço que já quase não existe em local semelhante àquele e em Portugal. E, esse vodka, tomava-o no afogar dessas emoções sempre tontas, sempre tantas, de saber que a Jennifer se entretinha com um amigo novo. Ora não há assexuada amizade entre homens e mulheres heterossexuais: É uma questão de tempo e oportunidade; estado de todos nós antes de a outros nós nos entregarmos. 

Ao saber desse estado Jenniferiano, não mais consegui continuar a nossa conversa telefónica, devido às emoções queimando no peito e, como água na cafeteira ao lume, subindo e misturando-se com a cafeína, que se mistura com o sangue, e que nos levanta e força à cafeína reagir, no meu caso a tomar um duche, fazer a barba, passar no cabeleireiro a que tinha antes desistido de ir neste dia mesmo, mas que agora tarde demais era: A aparadora de cabelo tinha-se ausentado; a depiladora removia pêlo nas traseiras (não sei se do traseiro), e as minhas orelhas tiveram que ficar frondosamente protegidas de agressões externas mais uma dia, pêlo sim pelo não.

E fui, a passo firme, a passo irado, até à beira-rio, até à esplanada, de onde as emoções se podem lançar para desaguar e diluir no Atlântico de águas frias, as quais as emoções quentes, se experientes, buscam. 

E, na esplanada, ambicionava eu saudar pela primeira vez uma nova amiga, mas sobre a Jennifer nada lhe dizendo, contudo dando-lhe atenção tão intensa como se ela fosse a Jennifer. E se isto que te digo te soa a infantil é porque é verdade. Tivesse eu tomado as rédeas do discurso e estaríamos ambos agora lendo uma poesia, porque ler não é um acto solitário, a menos que estejas lendo o que antes escreveste... E mesmo assim!... 

Depois deste pôr-do-sol irei pôr-me-belo, e o que vier receberei de braços abertos, livres que estão da forma do corpo ausente da Jennifer. 

É com estranho prazer que me expresso aqui em português, uma língua que por muito que ela a estude jamais a sentirá porque não a viveu -- tal como eu não vivi em inglês, ou, melhor, se o vivi foi-o noutramente.

Não te iludas -- eu quero que ela viva essa outra vida que agora se lhe apresenta. Não odeio no amor. Apenas queimo os cabos e as amarras que nos atavam um ao outro. E para isso um cigarro basta, seja a sua ignição por fósforo ou por isqueiro (por pedra pederneira ou por espelho demoraria mais do que este texto delonga). E desse cigarro se faz mecha, e dessa mecha se faz a queima, e daí naturalmente fumo.

Vem beber um vodka laranja, essa bebida cor-de-chama, em brinde e hino ao pôr-do-sol, tudo bem rimado com álcool.  

António's box is open, never as destructive as Pandora's.

______



Thursday, 7 May 2015

Langi

O Langi faleceu hoje de manhã. Deixo aqui então um texto que lhe escrevi em 2011:


Ah, este amor-cão!...

Entraste na minha vida com medo
e eu na tua por atracção.
Apenas um de nós sairá vivo
desta animalesca relação.


Ensinaste-me a fertilidade da merda,
e que o odor exige habituação.
Ensinei-te que da liberdade a perda
nem sempre será um senão.

Lembro-me das ondas, quando as viste
entre forte temor e admiração.
Deslumbraste-te de areia e sentiste
que trincar líquidos o é em vão.

Esta rima tão parva não é um acaso;
é a que melhor serve de ilustração
a um sentimento tão bem animado:
amor-cão, amor-cão, amor-cão!


E quando não rimamos, ouço-te
ladrar bem alto: estou vivo, uivo,
sou feroz, e matreiro,

mordo tudo: sapato, rabo e rato.
Mas no teu silêncio o olho diz-te:
Dá-me comida, por compaixão.




Saturday, 2 May 2015

A ordem natural

Na ordem natural, em desordem a vida.
O cão torna-se velho e morre em espelho;
a mãe, ela segue mas numa via paralela;
dos sobrinhos temos margem de sobra;
e no trilho deles todo o filho. Ou adopte-se.

Dos amantes, dormimos com todo o amante
e eles com todo o nosso, sem beijo ou osso
trocado (o osso) e acariciado (o beijo), 
mas toma lá um postal vírico no verso:
“Poderíamos ter sido nós; não foi”
assim, sem pontuação final ou diagnóstico.

E do juízo, julgamos que o siso nos cresce
a cada menos um dente. Ardendo a madeira
da memória, no fumo diferente a de cada,
em cada, a floresta lida ou, nela, uma sesta,
e cinzas na cadeia do pensamento próprio.






Monday, 6 October 2014

Manifestação p'r'ó Bem e p'r'ó Mal Pró-Vida



De tantas causas, de causas tantas, é esta a causa que te move?
Que te faz sair de casa num domingo, sagrado, e profanar a calma do Senhor?
E a minha?
Que te faz, em algumas dúzias de pulmões ao alto, proclamar-te pró-vida?
E nós, os restantes? Pró-morte?
Vai um referendo sobre quem de nós mais defende, mais respeita, mais ama?
E outro maior sobre a existência da alma?

Enquanto uns as Santas Cruzadas estudam, outros o fazem sobre as Invasões dos Infiéis.
Linguagem emotiva não é por si só um argumento válido. Mas sei que dá frutos.
Contudo a atenção deve centrar-se no conteúdo cognitivo. Até porque os frutos apodrecem.

E o que te apresento para cognição é pouco mais do que isto:
Respeito a tua liberdade religiosa, apesar de não gostar da maioria dos seus efeitos no meu dia-a-dia.
Respeito que te queiras multiplicar e assim, suspeito, ser em fiéis o maior número, apesar de não gostar de ver crianças etiquetadas e segregadas, até assassinadas, por os seus progenitores serem também autores das etiquetas, segregações, e até aparições, crianças essas que ainda não tiveram oportunidade de descobrir o mundo, de o questionar, de fazer as suas opções independentemente dos teus anseios.
E muito mais respeito, e defendo, incluindo a paciência do leitor. Se bem que nem sempre, confesso.
Respeita então, por alma e graça do Senhor, a liberdade da mulher fazer o que entende com o seu corpo.
Respeita, por alma e graça do por favor, vidas que não podem abortar em luxo, e em luxo hipócrita no final orar para que outras vidas não abortem.
Sobretudo respeita o que é outridão para ti.
Deus criou essa mesma multiplicidade que em nome Dele julgas.
No juízo final, o que te diz isso?





Tuesday, 5 February 2013

Ao café da manhã o primeiro


Negro, e de negro obreiro,
usado como pretexto dum encontro
ou, num encontro, como entretimento,
sabes a África e a sal num veleiro.

A tua substância é viciante,
o teu vigor fumega da chávena
e reclama por beleza pristina.

E na cafeteira solidifica-se teu vestígio,
e a realidade é que se me modifica.




_____

imagem por Gerry Ungaro
http://tinyurl.com/kc7qcsy 


Thursday, 31 January 2013

Bateu uma saudade, diz-se no Brasil

Bateu uma saudade, e eu, que não sou reservado, abri-lhe a porta.
Pensava que as saudades eram cinzentas, e ei-la; multicolorida.
Pensava que doíam ou eram de índole aflita. Ora esta entrou serena.
Sentou-se no sofá e sorriu. De tão elegante, ganhou o meu pasmo.
-- A que devo tão inesperada visita?
-- Converti-me às Testemunhas de Jeová. Sou a mais bem sucedida.


Coisas que ainda não aprendi – II

Não dar significado a qualquer sinal até que este se verta em sonoro.
Colocar rolha cor-de-rosa no buraco que liga o neurónio à boca.
Colocar rolha no olho que liga ao buraco cor-de-rosa.
Em assunto sério, ludibriar o riso.

E soma, e segue.


Tuesday, 29 January 2013

A teoria da rolha

E se no princípio verbo houvesse,
o nosso verbo desde verde idade
seria comer, do substantivo fome,
da constante finita sempre.

Nesta actualidade, a mesa repleta
presenteia-nos fotografia animada,
e de passada época se aprecia
literatura, escultura, e pintura.

E antes, sem sequer sabermos
o que somos, oferecem-nos
deuses e demónios expiatórios,
energias imensuráveis.

Se dúvida não há é a do buraco,
que, por muito que se coma, algo
se nos esvazia. E daí a míngua,
e a suprema teoria da rolha.





Wednesday, 25 April 2012

“Eles andem aí!”

Estou a tentar pagar a dívida que contraí quando nos ofereciam crédito por todos os lados. Pensando nos telefonemas que recebia de tempos em tempos, posso dizer que até me o ofereceram pelas orelhas, a ver se eu engolia. Valha-nos Deus por essa biológica impossibilidade. Nesses tempos era mais barato comprar casa do que arrendar, logo comprei casa.


E, com as medidas até agora tomadas, o governo cada vez mais está a tentar privar-me de pagar o que devo, enquanto que o problema do país é o excessivo endividamento privado. Porque me considero um dos assalariados no topo do grupo dos mal pagos, não é difícil imaginar a pressão que está sendo exercida daqui para baixo.

Instrua-se, pois, a polícia para reagir à mínima provocação no dia 25 de Abril de 2012. Como é que isto pode fazer sentido?

Andava eu intrigado de onde viriam estas idéias que tão alienígenas parecem ser. E foi então que me lembrei do filme, ou documentário encapotado de filme, MIB - Men in Black.

O mau da fita, para quem não vê filmes divertidos, é um insectóide que tem dificuldade em estar confortável dentro dum corpo humano; o hospedeiro.


E pela manhã fez-se-me luz. Ou talvez se tenha feito matinal divino fruto, já que o que me apareceu como que por visão foi o ministro Álvaro Santos Pereira. Lembras-te dele estar irritado porque pensava que estavam a insultá-lo por ser emigrante? Ora, emigrante é, mas dos que vem do sideral espaço, ou do espaço siderado; não me ocorre agora como é que se diz.

E o ministro Relvas? Tem um nome rasteiro mas é só para disfarçar, que ele vem é muito lá do alto. É tão alta a sua patente que passa todo o tempo a comunicar por aparelhos electrónicos com a nave-mãe. E como se vê pelo olhar inquieto e gestos desconchavados, ele é um insectóide desconfortável na pele que veste. Tal como o Álvaro.

Já o ministro Gaspar teve um problema na ligação da traqueia de insectóide à do corpo hospedeiro. E por isso fala pausadamente para não se notar. E por isso nota-se.

Certo, tal como o faria qualquer espécie alienígena que tivesse delineado bem a estratégia de invasão da nossa amada terra, alguns ministros hão-de ser humanos para ajudar à farsa. E o primeiro-ministro bem me enganou por uns tempos. Mas ele deve ser é uma versão melhorada de insectóide. É que, se fosse humano, envergonhar-se-ia de andar sempre a dar a palavra dada por não dada. E aquele sorriso também ficou mais um arreganhar de dentes do que outra coisa, de tão impostor ser. A última dúvida foi-se-me quando pensei no modo como discursava: nenhum humano conseguiria aguentar tanto tempo e tanta entrevista naquele modo mecânico sem dizer absolutamente nada. Sim, qualquer humano, por muito que gostasse de ouvir o seu próprio timbre de voz e apreciar o seu próprio raciocínio, adormeceria. Mas o insectóide disfarçado de roedor dura, e dura, e dura; muito mais do que o outro coelho duradouro.    

Na primeira vaga de invasores, deve ter vindo o Sr. Cavaco Silva, o Sr. Alberto João Jardim, e até o Sr. Fernando José da Costa, autarca pelas Caldas da Rainha que tanto ajudou à infiltração da força insectóide na estrutura do PSD. Eles vieram como batedores. E tanto bateram que nós já estávamos acostumados a ver insectóides disfarçados de humanos quando agora a força principal nos caiu em cima.
Sei que é feio e incorrecto julgar as pessoas pela sua aparência. Mas cá me parece, e vendo-se-lhes a política, que estes senhores vieram para nos comer.


__________

Hoje sou também um Man in Black pela ocasião do falecimento de Miguel Portas, a quem se dedica este texto apesar do texto não o merecer.

Wednesday, 19 October 2011

Da Portuguesa Mansidão Bovina

No contexto da crise nacional, tem vindo à tona dos comentários a resignação portuguesa perante medidas políticas que bem podem ser designadas como actos de extorsão.

Tal como em ocasiões anteriores, um dos autores chamados à colação por bloguistas e chato-emailistas é Guerra Junqueiro. No final do século XIX, a sua impressão sobre a classe inferior portuguesa era a de:

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas.

à qual me apetece contrapor uma ideia do seu contemporâneo Eça de Queirós:

A criança portuguesa é excessivamente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os Portugueses, só começamos a ser idiotas quando chegamos à idade da razão. Em pequenos temos todos uma pontinha de génio.

Para o meu ser possivelmente pensante, a nossa mansidão bovina parece fruto, infelizmente, da necessidade de sobreviver ao longo da história sob figuras autoritárias. Do tipo das que usaram marinheiros para aprimorar a pontaria (1). Ou das que se lembravam de um qualquer pretexto para lançar à fogueira mais um pobre consumidor de oxigénio (2). Se isso foi num passado recente, imagine-se o que era necessário para sobreviver em eras mais remotas.

O Sr. Silva, no exercício da sua pura presidência, já por mais de uma vez mostrou o seu apreço pelos seres bovinos. Em particular as vacas. E em especial aquelas que se deixam ordenhar deleitadamente por robôs mecânicos (e frios). Qualquer semelhança entre essas vacas e a população portuguesa, ou semelhança entre taxadores sob influência de um qualquer frio panfleto ideológico e os robôs, é uma triste alegoria de não deitar fora.  

A RTP apanhou à janela, no passado sábado dia 15 de Outubro, uma funcionária pública que representa bem o nosso povo. Perguntaram-lhe sobre o subsídio de férias e de natal que lhe tinha sido extraído. Com um sorriso nos lábios, encolheu os ombros como quem diz “Deus me o deu, Deus me o tirou" dizendo de facto, "O que se há-de fazer, não é?" Ora que merece gente assim? Caridade. Da que é praticada pela Igreja. Da que tanto sossega por benemerência a consciência de ricos financiadores. Da que sem a qual a instituição religiosa parece desprovida de conteúdo funcional. E a caridade só é necessária quando a solidariedade já não existe.

________________

(1)     O sobrinho de D. João V divertia-se com armas de fogo no Terreiro do Paço tendo por alvo os macacos no galho, o que naquela área é o mesmo que dizer os marinheiros empoleirados nos mastros dos navios ancorados, ou dos que passavam cerca da margem.

 

(2)     Inquisição portuguesa (1536-1821).

 

 

 

Friday, 26 August 2011

Remova-se do calendário o mês de Agosto

Deixe-se estar quietos os feriados, mesmo os religiosos.
Afinal até Deus precisa de descanso.
Pena que nesses dias Lhe emprenhem os ouvidos de preces.
Mas, por favor, remova-se do calendário o mês de Agosto.´

Quanto àquele, há pouco mês tão politizado.
Quando ele chega, a gosto lança-se novas medidas.
Medidas que, num Abril, seriam de grande desgosto.

Vinte e cinto dias deste Agosto assemelham-se a década.
Ainda não se foi o mês, e já se me foi um terço do décimo quarto.

Há anos, mudei lâmpadas e hábito de consumo de electricidade.
Passei a poupar no lavar da louça, no barbear, e no duche.
Consoante a perspectiva, ando mais porco ou menos lavado.
E o que aconteceu neste Agosto?
Sobre essa poupança, toma lá imposto sobre o valor acrescentado.

Nada recomposto do que me tinha trazido o mês, novo aumento.
Em lugar de irmos embora do Euro, chega-nos a Euribor e sobe.
Passou Junho, passou Julho, chega Agosto e dispara o juro.
Pois se ouvir passos dum qualquer coelho juro que disparo.

Se Agosto fosse mês primaveril seria um mês bem verde.
Mas a corda das finanças aperta-me a garganta da carteira.
Assim verde estou eu neste mês de médio estio tão verdugo.

Por favor, remova-se do calendário o mês de Agosto.
Ou, no mínimo, mude-se-lhe a porra do nome.
Ou mude-se o nome a mim.
É que eu sou António, membro do povo anónimo.
Não sou nem rico Amorim nem augusto Augusto.




Friday, 8 July 2011

Invectivar inventivamente



Talvez algum dos muitos humoristas portugueses já se tenha lembrado desta, mas se o é assim desconheço.

Nas próximas décadas, previsivelmente, poderemos pedir a alguém que se cale da seguinte forma:

"Ora, vai mas é acalmar os mercados, vai."  





Friday, 10 June 2011

A Idade da Pedra

Na véspera do 10 de Junho, o Presidente por ti eleito ousou citar um médico do século XVI, Amato Lusitano de seu nome, que se referia a um paciente que recusava a suposta cura dos seus males: “Aos que não aceitam as ordens dos médicos, não se deve dar conselho médico.” Supõe-se que o Sr. Silva pretendia fazer uma analogia com a situação do país, o qual deve aceitar a cura da tríade que definiu os moldes da ajuda externa. E se só se supõe é porque nisto de encontrar cousa concreta no que o Sr. Silva emite, quando se digna fazê-lo, que venha o Diabo e o interprete. O que normalmente sucede.

Se não me falha a memória, a avançada medicina do século XVI prescrevia o sangramento como cura para grande parte das maleitas. Logo, não poderia ter sido melhor a analogia do Sr. Silva, e tão pouco se pode criticar o paciente que a tais cuidados paliativos se negue.

Hoje, nas comemorações do dia 10 de Junho, o Sr. Silva apela ao desenvolvimento do interior do país e ao equilíbrio da balança comercial agrícola relativa às importações e exportações. E depois condecora emocionadamente a Sr.ª Manuela Ferreira Leite. Talvez se siga o Sr. Loureiro, e todos os anteriores ministros do Sr. Silva.

Ao bem cunhado título de rei da banalidade junta-se o de rei do ridículo. Ridículo porque este rei anda nu, fingindo que nada contribuiu para o estado da nação, confiando sempre na constante decrepitude da memória para purificar o seu passado. Ridículo a comer bolo rei. Ridículo no tom de voz. Ridículo a balbuciar o hino. Ridículo sempre no seu dia da raça. Não é de espantar que todo o discurso deste homem seja uma grande carta de amor ao país: ridículo.

Ora, se se é duplamente rei, é-se imperador. E é aí, nesse domínio, que a dor impera.

Pegando nas preocupações do Imperador Silva e nos seus apelos, parece evidente uma solução: legalizar o cultivo e comercialização de marijuana. Talvez sob a marca Maria, em homenagem à bolacha e à bolachuda da primeira dama.


Parece proposta 
escandalosa. Sobretudo vinda de alguém que não consume tais tóxicos. Mas vejamos as coisas por outro prisma:


Poucos parecem interessados em, nem têm poder para, modificar o actual modelo económico. Portugal não tem uma matéria prima tão valiosa, caso do petróleo, que permita disfarçar a má gestão. E esta última parece ser fonte que não se esgota.

Assim, usaríamos o potencial agrícola do país na plantação de marijuana. De qualidade. Exportaríamos para a Holanda e para outros países que o seu consumo legalizassem, mais que equilibrando a balança comercial. Temos tantos cafés que seria fácil promover o novo tipo de consumo. Aumentaríamos a tão prezada turismo-dependência. Desenvolveríamos o interior do país. Pouparíamos na despesa do Serviço Nacional de Saúde com anti-depressivos. Seríamos a verdadeira jangada de pedra. E seriam tantos -íamos que nos iríamos tornar no Império da Paz e do Amor. Se bem que já seria tarde para nos tornarmos no pessoano Quinto Império (foram os EUA), safávamo-nos, menos mal, como Sexto.

Temos é que ser os primeiros, tal como nas Descobertas. Mas para isso têm que me dar cavaco.







Monday, 21 March 2011

Acareação

Ela queria tudo e eu só tinha isto. Abri a mão, rugosa de tanta impressão digital. Vales para explorar, colinas por subir e ver o que está do outro lado (outro vale, outra colina). Caravanas de ácaros sem Alá mas com camelo (eu). Ela queria tudo e eu só tinha dez dedos, duas opções, uma em cada mão, e uma só vontade. Ela queria tudo, e por isso acenei com uma vontade (contrária) e fui-me, aplicar duas opções, dez dedos e uma vontade (forçada) noutra acção. Valham-me os ácaros. Com eles conto sempre, mas nunca os vou poder contar. Por isso isto te conto.

 

 

Sunday, 20 March 2011

Sem de musas filtrado

Eu nem te beijei, tu nem me beijaste,
e já braços em ti tinha antes de te ter tocado.

Ainda os meus pés não tinham aterrado
e já p'r'ás Índias voava contigo por um lado.

Nem ainda algo se havia passado,
e já isto e aquilo podia ser vivido ou imaginado.

Então é isso que é ser-se um ser vivo;
é estar aflito, e nessa aflição ser-se alado.

 

 


 

Wednesday, 16 March 2011

Ah, este amor-cão!...

Entraste na minha vida com medo
e eu na tua por atracção.
Apenas um de nós sairá vivo
desta animalesca relação.

Ensinaste-me a fertilidade da merda,
e que o odor exige habituação.
Ensinei-te que da liberdade a perda
nem sempre será um senão.
 
Lembro-me das ondas, quando as viste
entre forte temor e admiração.
Deslumbraste-te de areia e sentiste
que trincar líquidos o é em vão. 
 
Esta rima tão parva não é um acaso;
é a que melhor serve de ilustração
a um sentimento tão bem animado:
amor-cão, amor-cão, amor-cão!

E quando não rimamos, ouço-te
gritar bem alto: estou vivo, uivo,
sou feroz, e matreiro,
mordo tudo: sapato, rabo e rato.
Mas no teu silêncio o olho diz-te:
Dá-me comida, por compaixão.