Tuesday, 27 September 2016

Rua da Betesga

Ele há um fado que pede 
"Lisboa, não sejas francesa." 

Nunca entendi essa letra
que pela negativa reclama
retorno a uma portugalidade.

Se bem que não há regra
que diga que o que se cante
tem que fazer sentido,
e o autor, na onda da rima,
é arrastado por uma corrente,
e pode embater numa rocha,
quebrando o crânio, criando
vacuidade no derrame.

Contudo, naquela madrugada,
metidos num esconso com vista
sobre os telhados do Rossio
e os da Praça da Figueira,
avistámos dessa betesga a pinta,
e ela disse, "Parece Paris."

E foi, nesse ver finalmente a face
dessa Lisboa afrancesada,
e por vírus a espirrar obrigado, 
e sem me poder assoar no momento, 
que pinguei. Também do nariz.    

Monday, 26 September 2016

Suspenso


Leda e o cisne, de Botero
Se a vida é manutenção,
manutenção, manutenção,
manutenção,
eis a pura razão para deixar um momento
quieto no tempo, não o repetindo,
não buscando a repetição.





Sunday, 18 September 2016

Pela biblioteca horizontal

Toda a criança e todo o vizinho
proibido de ruído para além duma tosse
tímida, reclinados numa chaise longue,

de psicólogo na mão, por vezes psiquiatra,
feitos de frágil papel e tinta desvanecente,
de si próprios palrando em surdina,

berrando em surdina, em surdina rindo,
e assim sussurrando beatificamente,
bestas, belos, bobos, quase todos.

Estar sentado é posto de trabalho;
deitado deve ser o absorver do etéreo
enredo em cada livro contido.

Logo, nesse derramar de deleite divino,
a cadeira não tem postura para a literatura.

Lombo dorido, fora! Venha a chaise longue!  


Thursday, 1 September 2016

From close to closure - a toast

"I'm emotionally crazy right now," saía da rádio que poluía a esplanada ribeirinha onde fui tomar o vodka com laranja natural -- três euros, é um preço que já quase não existe em local semelhante àquele e em Portugal. E, esse vodka, tomava-o no afogar dessas emoções sempre tontas, sempre tantas, de saber que a Jennifer se entretinha com um amigo novo. Ora não há assexuada amizade entre homens e mulheres heterossexuais: É uma questão de tempo e oportunidade; estado de todos nós antes de a outros nós nos entregarmos. 

Ao saber desse estado Jenniferiano, não mais consegui continuar a nossa conversa telefónica, devido às emoções queimando no peito e, como água na cafeteira ao lume, subindo e misturando-se com a cafeína, que se mistura com o sangue, e que nos levanta e força à cafeína reagir, no meu caso a tomar um duche, fazer a barba, passar no cabeleireiro a que tinha antes desistido de ir neste dia mesmo, mas que agora tarde demais era: A aparadora de cabelo tinha-se ausentado; a depiladora removia pêlo nas traseiras (não sei se do traseiro), e as minhas orelhas tiveram que ficar frondosamente protegidas de agressões externas mais uma dia, pêlo sim pelo não.

E fui, a passo firme, a passo irado, até à beira-rio, até à esplanada, de onde as emoções se podem lançar para desaguar e diluir no Atlântico de águas frias, as quais as emoções quentes, se experientes, buscam. 

E, na esplanada, ambicionava eu saudar pela primeira vez uma nova amiga, mas sobre a Jennifer nada lhe dizendo, contudo dando-lhe atenção tão intensa como se ela fosse a Jennifer. E se isto que te digo te soa a infantil é porque é verdade. Tivesse eu tomado as rédeas do discurso e estaríamos ambos agora lendo uma poesia, porque ler não é um acto solitário, a menos que estejas lendo o que antes escreveste... E mesmo assim!... 

Depois deste pôr-do-sol irei pôr-me-belo, e o que vier receberei de braços abertos, livres que estão da forma do corpo ausente da Jennifer. 

É com estranho prazer que me expresso aqui em português, uma língua que por muito que ela a estude jamais a sentirá porque não a viveu -- tal como eu não vivi em inglês, ou, melhor, se o vivi foi-o noutramente.

Não te iludas -- eu quero que ela viva essa outra vida que agora se lhe apresenta. Não odeio no amor. Apenas queimo os cabos e as amarras que nos atavam um ao outro. E para isso um cigarro basta, seja a sua ignição por fósforo ou por isqueiro (por pedra pederneira ou por espelho demoraria mais do que este texto delonga). E desse cigarro se faz mecha, e dessa mecha se faz a queima, e daí naturalmente fumo.

Vem beber um vodka laranja, essa bebida cor-de-chama, em brinde e hino ao pôr-do-sol, tudo bem rimado com álcool.  

António's box is open, never as destructive as Pandora's.

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