Saturday, 25 February 2006

Uma empreitada de utilidade poética

Um poeta pode ser muito útil ao planeta.
E poetisa; ressalve-se a igualdade no direito.

E quantos mais houver, melhor ainda,
porque há aqui um trabalho a fazer, urgente.

E contentem-se com a empreitada
para a qual vos reservo, antes que todo
o que fale o faça em poesia.

É que isso faria da linguagem corrente
a poesia irrompendo pelo quotidiano,
e a vossa poética voz, hum, monótona.

Venham comigo, com a vossa sagaz mente,
a cada campo minado,
abandonado de gente.

Caminhem declamando,
de mãos dadas, e inspiração ao alto.

Varram todo o centímetro quadrado
de terra desvalida,
e no entanto pelo homem semeada.

E, quando rebentar uma mina,
em lugar de jorrarem sangue, veias, e ventre,
transformem a explosão numa metáfora
e os vossos corpos em ar puro.

E, em vez de rebentamento,
que façam brotar uma flor deslumbrante,
que só a vossa poesia concebe.

Esta empreitada está aberta
a poetas de qualquer género e de qualquer género,
da idade crescente até à avançada,
embora haja uma prioridade:

Emprega-se primeiro o comandante
que mandou plantar aquela mortal semente
desde que convencido por um poeta
a substituí-lo na tarefa.

Todo o currículo ou carta de ofensa
deve ser dirigido ao dono da obra,
Assina: o Grande Arquitecto do Mundo.




Provérbios e Citações - Ruy Duarte de Carvalho

Ruy Duarte de Carvalho (n.1941), antropólogo e professor, leccionou nas Universidades de Luanda, Coimbra e São Paulo. Português de origem, mas angolano por vocação e opção ("O nosso país é aquele com o qual o nosso destino se mistura"), iniciou a sua obra poética em 1972 com Chão de Oferta. Além de poesia, publicou diversas outras obras, das quais se destacam Vou lá visitar pastores (1999), Os Papéis do Inglês (2000) e As Paisagens Propícias (2005).

Tanto a introdução ao autor como os textos que se seguem foram extraídos da sua obra Lavra - Poesia Reunida 1970/2000, Cotovia, 2005. Tive o privilégio de ter colaborado na adaptação da sua obra Vou lá visitar pastores para teatro, da autoria de Rui Guilherme Lopes, com excelentes críticas mas de pouca duração, devido ao pouco reconhecimento que Ruy Duarte de Carvalho obteve até ao momento junto do público português (depois do seu falecimento as coisas irão melhorar bastante). Ó Rui sem ípsilon, quão doloroso foi cortar o Ruy!... Ó Ruy, quão doloroso é saber-te cortado!...

 

PROVÉRBIOS  E  CITAÇÕES

 

*

 

Omili yange iwa ili m’ongubu

Omupika wange muwa k’oilongo

 

A minha bengala metida em espinheiros, dentro do cercado

Está longe de casa o meu melhor escravo

 

Kwanyama

 

Está escravo da casa o meu melhor longe, sou escravo da casa dentro do cercado, cerquei-me de casas. Longe de espinheiras eu sou a bengala cercada de escravos. Sou escravo do longe que cerquei de casas dentro de espinheiras. Estou dentro de casa, longe do cercado, cercado de longe em casa de escravo. Estou longe do longe que há no meu cercado.

 

*

 

Ndapewa oilonga idiu k’ombala

Okuhondya omufya wediva

Okukomba esosolo n’omaoko

Okuhumbata omeva m’osimbale

Okutoma ongobe n’ongwiya

Okuyuva ongobe n'onyala

Okuka omuti n’enyala

Okukyaneka oufila k’omhada yomeva

 

Os duros trabalhos que lhe foram dados para fazer na ombala:

vedar com uma linha um rombo no tanque

varrer os macutas sem usar vassoura

com a ajuda de um cesto transportar a água

abater um boi servido de agulha

esfolar esse boi apenas com as mãos

derrubar um pau só com as próprias unhas

secar a farinha espalhando-a na água.

 

Kwanyama

 

abater um boi com a ajuda de um cesto

derrubar um pau sem usar vassoura

secar a farinha apenas com as unhas

transportar a água espalhando-a na água

varrer as macutas servido de agulha

 

derrubar as águas sem usar as unhas

vedar com uma linha um rombo nas mãos

abater macutas com ajuda de um cesto

com a ajuda de um boi abater um tanque

transportar um boi esfolado com as unhas

derrubar as unhas apenas com as mãos

derrubar a água secar a farinha transportar as unhas

 

espalhar as agulhas abatendo os cestos varrer as vassouras servido de um tanque com a ajuda dos rombos.

 

vedar a farinha

derrubar as unhas

esfolar as agulhas

abater os tanques

transportar os rombos

 

varrer as ajudas

secar os apenas

derrubar as linhas

derrubar as linhas

derrubar as linhas

derrubar as linhas.

 

*

 

Não é questão de idade, quem gosta do ferrão morre pelo mel e vai, a procurar areias, alheio à sedução, vai procurar montanhas para inverter-se nelas, vai procurar a chuva e um companheiro com quem encontra abrigo. Elefantes então desfilariam conscientes da sua imensidade. E o dono da azagaia indagaria: será questão da idade? Ou de caminho? Em que terra aguardará o pássaro molhado com quem eu devo partilhar o abrigo? O pássaro molhado, que se molhou comigo, que rastos seguirá, de outras manadas, que abrigo ou que montanha habitará agora, aonde gritará para ser ouvido?

Na terra onde passaste, onde não brama o eco e nem a rama medra, aí se dava a caça, o elefante fácil, fatigado, também em busca de abrigo

para secar o coração molhado.

 

 

 

Um projecto de pessoa - quinto acto

Um projecto de pessoa


 


 


Quinto Acto


 


 


 


Extracto da memória do Diário Íntimo Intra-uterino:


 


Imagino que uma vida até que poderia ser uma viajante luz no espaço negro, consumindo matéria. O passado seria então como a cauda do cometa, com restos desgastados que se vão libertando na imensa escuridão que nos sidera, a cauda dessa chama apenas gravada na memória. E que, com destino errante, a trajectória sofreria de influências da gravidade de tantos astros e outros viajantes que com essa luz embateriam. Ou que a luz errante embateria neles. E que os choques seriam mínimos ou exponencialmente mais máximos. E que várias luzinhas geradas por algum potente embate seguiriam a sua própria trajectória, com parte da matéria prima da matéria que lhes deu origem. Ou que as luzes viajariam lado a lado como duas cordas de guitarra a vibrar por simpatia, até que ou se as suas trajectórias fossem alteradas, por força da matéria própria ou por força da alheia. E que o trajecto não seria para cima nem para baixo, nem para a esquerda nem direita, pois não haveria um ponto fulcral de referência, um super astro que tivesse gravidade suficiente. E que umas luzes, por acaso das influências, iriam dirigir-se em rota de colisão e estatelar-se na superfície amorfizante de um sol amarelo, enquanto que outras na de sóis negros. E que umas luzes tentariam abrandar a marcha mas outras tentariam ir mais depressa. E que umas pensariam para onde iam e projectariam o possível trajecto futuro, e que as outras iam e chegariam na mesma, em diferente estado ou condição. E que tudo isso poderia ser alterado nem sempre por vontade própria. E que as luzes teriam várias tonalidades, mais vermelhas na aproximação e mais azuis no afasto. E teriam quantidades em proporções variáveis de verde ou laranja, amarelo ou violeta. E completamente negra não haveria nenhuma, a não ser o espaço vazio por onde se havia consumido. E que teriam cheiro, consoante a matéria que ardia.


 


E depois preenchi um quadrante negro de espaço com biliões dessas luzes viajantes, errando por aqui e por ali, e pareceu-me ver a via láctea, e no buraco negro o lado de dentro de uma teta.


 


Era um tecido com padrão. Tal como o do pano da cozinha. Se eu estivesse em casa e não nesta materna barriga, iria lavar pratos, centrifugar roupas, varrer o chão e aspirar, sempre aspirar.


 


 


 

Friday, 24 February 2006

Simplificando

Isto é um poema simples;

 

tão simples este poema

como qualquer pessoa

que diz que simples é;

 

simples como o corpo

dessa simples pessoa,

composto de DNA,

as proteínas RNA,

e a sua relação;

 

simples sessenta e cinco

por cento de oxigénio

e dezoito e meio

por cento de carbono

e nove e meio

por cento de hidrogénio

e três vírgula dois por cento

de simples nitrogénio;

 

simples como a homeostase

ou a pontuação adequada,

ambas apresentando

grande necessidade

de percentagem mínima

de cálcio e vírgula

ponto e potássio

súlfur e travessão

hífen e sódio

cloro e parêntesis

aspas e magnésio

iodo e exclamação

ponto e vírgula e ferro;

 

simples como o vestígio

de um co-factor crítico,

logo não de literatura,

mas para vária enzima,

como o caso do cobalto

(na luz da ribalta),

do crómio

(que também aturo),

do cobre

(o que esteja nu),

do zinco

(substituindo a telha),

do selénio

(para se ficar sereno);

 

simples como a vitamina

ou mineral bastante;

 

simples como tudo

o que aqui não consta;

 

simples como a onda

eléctrica que percorre

o simples corpo

da simples pessoa

que diz que simples é

como este poema.

 

 

 

Thursday, 23 February 2006

Oferta em dó menor

 


À Adriana Vianna, meio compositora desta peça


 


 


Ofereceram-me, enfim, um disco


inteiro, melado, guloso.


 


Dos tímpanos salivando,


cuja baba a cartilagem perfurava,


corrompeu-se o hirto osso.


 


O Baile da Orelha começava...


Era mais do que uma festa, era uma festa e tango!


Acendam-se as velas de verdadeira cera!


Vistam-se os casacos de pêlo fino!


Que a música entre pelo sistema nervoso!


Que os vizinhos venham olhar ao olho


e reclamem que a música é indigesta!


(Pudera! Não entrava pela boca...)


Arrume-se esta massa cinzenta;


faça-se espaço para o vazio!


E deixe-se que todo o organismo


sacuda dos ombros o pó,


para que o pé não se sinta sozinho.


 


 


 

Wednesday, 22 February 2006

Há vida na terra e vaca na lua

Quase ontem, tive um problema que o julgava muito grave.


Num dia posterior, sentei-me na lua bebendo um copo de leite – não sei porquê; pareceu-me adequado.


O problema devia estar por detrás de alguma formação nebulosa que recortava o azul que o sol empresta à água, pois não se vislumbrava.


Ou ter-se-ia diluído em outros tantos?


Afinal, aquele azul era-o efeito da soma dos problemas?


Não sei, mas era um daqueles azuis... [inserir uma foto do planeta Terra visto do Espaço na imaginação.]


Foi daí, quando olhei para o copo vazio de onde o sacanita do leite tinha flutuado, que entendi a relatividade da gravidade dos problemas.


 


 


 

Tuesday, 21 February 2006

Um projecto de pessoa - quarto acto

Um projecto de pessoa








Quarto Acto









[Que fique registada a contenção do autor das linhas que se seguem em não perverter a numeração por extenso deste acto, em não adicionar ou remover sujeitos ou adjectivos qualificativos, em manter este quarto intacto, em que, talvez, o bebé venha a nascer.]







Apetece-me chorar por todo o mundo e, assim, poupar-lhe o choro e dar-lhe uma cara risonha, lavada, como qualquer ruela triste de uma cidade suja após intensa noite de chuvada, agora revista no ofuscamento do reflexo que o sol imprime numa gota. Pelo menos até que um qualquer bebé chore de novo, desta feita para limpar os pulmões e respirar pela primeira vez, reclamando o seu direito a um pouco de espaço, a um pouco de oxigénio. Apetece-me chorar para que o mundo não chore por uma fracção de segundo. E se for preciso matar para que o mundo não mate uma fracção, oh, mata-me. Pouco importa.





Mas que esta lágrima não seja em vão. Que o fraccionado sorriso que te proporcionei seja o começo de uma risada que poderás soltar no fundo da depressão, nesse quarto vazio e escuro em que te encerras antes de te elevar de novo. E, se chorei tarde demais, se já estás morto antes de te teres sequer erguido num gargalhar bem sonoro e intestinamente agitador, deixa-me rir por ti. É que temo não poder rir depois de defunto.





Deixei escorrer a lágrima.


E outra.


E outra.


Afinal é quase só água.


É como a chuva, mas salinizada.


Mais branda.


Mais relaxada.


Seria mesmo chuva se o meu ser fosse já nuvem.





Bah! Foi em vão.





Tal como necessito de substância para alimentar a fome primária do corpo – o qual recuso separar do espírito, mais do que não seja porque toda a experiência sensória seria diferente caso o corpo diferente fosse, modificando o espírito e vice-versa – a fome seguinte necessita de um riso, mas de um riso sério, para levar para a frente ou modificar positivamente o que em geral pode ser chamado de grande absurdo, que é este facto de sermos talvez os únicos animais que têm ou podem vir a ter consciência de que a sua existência não tem nenhum propósito, e que isso é simplesmente fascinante pois estamos livres para descobrir este mundo complexo sem qualquer complexo anterior a nós próprios. Alto! Foi dito, “nós próprios”! Nós próprios e os nossos próprios nós! Lá vem a gargalhada! Ah, como se nós próprios não fossemos o resultado dessa equação gigantesca de tudo o que nos foi incutido, impresso por tudo o que nos rodeia nessa experiência sensória que é viver (embora seja bem mais confortável dizer que a culpa é de um determinado astro em conjunção com outro, e ao facto de termos nascido numa determinada época à qual nem se adicionam as condições climatéricas e variáveis, porque, compreenda-se, pondo de parte todo o resto, aí a equação torna-se realizável e finita no tempo útil de nos cobrarem por um livro ou por consulta que irá modificar o resto das nossas vidas, fazendo-nos esquecer de uma imensidão de influências das quais nem nos podemos lembrar porque, não só não cabe no nosso cérebro, como também não as podemos ter conscientemente presentes por puro desconhecimento. Ou, então, podendo, incluímos uma boa parte da gigantesca equação no consciente e vivemos alegremente numa camisa de forças que tem a suprema vantagem de ser gratuita, isso, claro está, no contexto de uma economia de mercado e de um Estado benfeitor). Enfim... não é sedutora a explicação plausível das coisas?





E, se mais razões para rir não houvesse, riria profundamente de ver-me no futuro a rir de tudo o que ri e do quanto estava errado – bendito seja o arrependimento. A vantagem de rir é que faz tanto sentido que seja feito no quarto como fora dele, o que é como quem diz que faz sentido unicamente em todo o lado. No resto do tempo, choro, grito, aprendo, desaprendo, aprendo, esqueço, ignoro, ignoro, ignoro, ignoro, e sobretudo esqueço, pois tudo foi mandado para o fundo da memória (e a culpa não foi minha, juro). Quando rir de novo, baralharei tudo isso, e o que daí vier à tona que venha por bem. E feliz parto!











Monday, 20 February 2006

Poemeto dedicado

Ah, a haver anjos, que os há,

devem ser de um desajeito!..

.

Imaginemos um, para descrevê-lo...


Deve ter mais que um defeito.

Será calvo, corcovado ou torto?

Distraído ou perdidamente achado?

O mais certo é ser despistado,

com uma mente tentando

absorver mais que o contido

no continente em que vagueia.


O aspecto poderá ser vagabundo.

E como criticar-lhe tal desleixo,

se ser-se anjo é ter cérebro

que, entre a camisa e o riso,

logo desdenha a fisionomia?


E, para ser de verdade um anjo,

basta um simples teste para sabê-lo.

Diga-lhe, “Você é um anjo lindo!”

A ser anjo vai de imediato negá-lo.

E quem sou eu para me dar ao luxo

de possuir tal angélica sabedoria?


Se ainda não sou seu conhecido,

permita-me que me apresente.

Por oposição, foi discernido

mais que um anjo surpreendente,

e se duvida do que lhe digo,

quem isto lhe diz é um diabrete.

 

 

Sunday, 19 February 2006

Religiosa ofensa

 

Um dia também eu fui mandado arder no inferno. Talvez até mais do que uma vez, sem que jamais o venha a saber. Claro que uma ofensa dessas pouco mais me faz do que umas cócegas no estômago, mais conhecidas por riso sardónico. O que se pode esperar de uma criança?

 

Mas não é o meu destino futuro que me preocupa, mas sim o que está por detrás de quem me dana. É que essa pessoa acredita piamente que após a nossa passagem por aqui um de dois destinos nos aguarda, para toda a eternidade. Essa mesma pessoa acredita piamente que um dos mandamentos é “não matarás”. No entanto, não tem qualquer problema em desejar a outrém que arda eternamente num inferno. Se nos abstrairmos e considerarmos que o humano destino obedece a estas verdades, matar o objecto da sua raiva não teria sido pena menor? E, antes de tudo, onde estava a outra face? E, no fim de tudo, onde está a santidade de quem me dana, o amor por todos, o perdão? Se é observando essa pessoa que se vê a divindade, para onde devo olhar para ver o dito inferno?

 

Já há algum tempo que (quase) deixei de me preocupar em ofender o outro. Afinal, nós ofendemo-nos até com o silêncio. Então, como é? Calamo-nos para quê?

  

Cruzes canhoto. Porque o sou.

 

 

 

Um projecto de pessoa - terceiro acto

Um projecto de pessoa


 


 


Terceiro Acto


 


 


Passaram alguns dias aqui no ventre-mãe. Estamos observando com atenção todo o desenrolar da cena. Creio que viemos sete ou oito, para não perder um movimento. Enquanto uns descansam os outros registam. A todos não nos vemos; é difícil movimentar-mo-nos neste líquido amiótico, sem esquecer a quietude que nos impomos para perturbar ao mínimo este ser que se desenvolve. Sei que uns registam dados genéticos, aqueloutros bacteriológicos. Havia uns que estavam autorizados a intervir numa qualquer malformação, salvando o ser de penas futuras. E eu sou apenas um observador com uma tarefa curiosa. Estou à espera da chegada da alma.


 


Foi difícil este desaprender a inspirar oxigénio. Nem sei se algum de nós terá sucumbido nessa tarefa de desaprender. O nosso desempenho nas aulas teóricas e práticas foi bem mais fácil, e era-nos dada a possibilidade de errar. Mas isto agora é a realidade.


 


Não sei como estão os colegas a lidar com todo este assunto da espera. Espero bem que estejam melhor do que eu. Para manter-me desperto e lúcido, redijo mentalmente um Diário Íntimo Intra-uterino. Nunca antes redigi algo de tanta profundidade e em ambiente tão sereno quanto este. 


 


As entradas nesse diário são de ordem vária, sendo exemplo esta dicotomia dos ditados que se alvitram a torto e a direito no mundo exterior: “Quem espera desespera”; “Quem espera sempre alcança”. Aqui, nesta redoma de silêncio marinho, neste espaço protegido e acarinhado com amor primordial (primeira ilusão do amor julgado divino?), Quem espera está esperando, mas nem por isso parado.


 


Segue a espera; nova entrada no Diário: A alma ainda não se manifestou. Talvez seja necessário esperar que este ser amorfo que nos faz face atinja os seis meses idade, altura em que o seu cérebro estará formado e os primeiros sonhos entrem em fase REM. Remos, remar, neste mar amiótico. Os sonhos de água. Os ruídos exteriores e não compreendidos por falta de conhecimento do código que lhes dê sentido. A mãe ri, todos chocalhamos. Chiu! Dorme, bebé, dorme.


 


 


 


 


 

Thursday, 16 February 2006

Um projecto de pessoa - segundo acto

Um projecto de pessoa


 


 


Segundo Acto


 


 


Cai o pano da seriedade. Muda-se o cenário como se muda de casaco. Pior, como quem muda de saia – simile melhor para o pano que cai e o cenário que se muda. Despedem-se os actores do acto passado. Não pela sua fraca representação, que o foi, mas porque doravante desnecessários. E, não, não vão ser contratados de novo; podem até estar famintos. Não serão repescados; não, não são arraia miúda. É que este é mais um acto de vida. O que foi não volta. E não há regresso. Que se desiludam os místicos da reencarnação e passem a viver com mais vida a única vez que existem nestes moldes supra superiores ao barro, que é apenas um dos seus menores constituintes. No máximo, espera-os a reciclagem dos seus ex-constituintes na formação duma qualquer outra forma de vida. E que não esperem perdão dos seus atentados contra a vida num momento ulterior. E, se têm dúvidas sobre o assunto, que perguntem a uns sacerdotes porque se suicidaram após terem sido incriminados de pedofilia, perguntem a esses iniciados no mistério o que é o perdão divino, o que os espera pós-vida, pós...


 


“Que vem a ser isto?!”


 Entra um personagem não escrito, imiscuindo-se neste acto.


 “Ó anotação em destempo, já entrei!”


 Antecipaste-te.


 “Mantém-te no teu lugar, como boa indicação de palco que és!”


 Pausa.


 “Não entendes... Toma lá em curto discurso directo: CALA-TE!”


 Silêncio.


 “Peço-lhes que ignorem aquelas linhas que nem diálogo são e que apenas adiam o inevitável: o interromper da aberrante descrição desta cena.”


 Imiscuído: “Vejam, mudou de estratégia... Agora introduz o meu discurso e atribui-me um nome que pretende ser ofensivo... Pobre texto...”


 Imiscuído (fingindo que ninguém o pode ouvir, emulando os pensamentos em voz alta): “Ah! Não desiste... Quer moldar-me a realidade... Alguém do público sabe como domar mero texto que se vai mutando em contraponto ao que pretende o actor principal – mais! – o único actor?...”


Imiscuído (apercebendo-se que afinal a sala está vazia e que, em alternativa, a telepatia tem algo de patológico): “Arre!... Desisto eu!”


Sai de cena.


...


Pausa.


...


Outra pausa.


... 


Silêncio.


... 


Um verdadeiro silêncio.


... 


Daqueles em que só se ouvem todos os ruídos excepto o da voz humana.


... 


Se estivesse alguém presente possuidor de um ouvido humano para o ouvir.


... 


E de uma mente vagamente humana para disso se aperceber.


... 


Sim, cada acto tem uma única cena.


... 


Irreversível.


 


 


 


 

Tuesday, 14 February 2006

Um projecto de pessoa - primeiro acto

Um projecto de pessoa

 

 

Primeiro Acto

 

 

Um projecto de pessoa principia.

 

O ovário é mãe e pai do óvulo,

é o protector invólucro.

É a primeira urna.

 

Canalizado, vai o comunitário esperma

a votos, sem segunda volta.

Qualquer zóide solitário jamais lá chegaria.

Faltar-lhe-ia aquela força favorecedora

que se encontra na irmandade.

Defendem todos a mesma causa.

São partidários do partido

forçado ou eleito,

amado ou Imposto

sobre o rendimento múltiplo.

E ei-los que chegam à sala do trono.

 

“Quem vem lá? Apenas um penetra!”

logo a guarda os interpela,

“Não se nasce em democracia!”

 

“Que espécie de tirania é esta?!

Nova penetração após penetração?

Este ser zóide é ser-se super-atleta!”

 

A guarda logo retorque,

“Ordem na hoste, seres de cabeça quente!

Aqui só um entra (se a guarda não estiver distraída...).”

 

“E qual é o vosso critério de entrada?”

 

“É abstracto,” a guarda sentencia.

 

“Rapazóides, bem vos disse

que este castelo era feminino!

Mas, formosa guarda,

deixai-me ser o escolhido.

Fui o mais rápido,

o mais afoito!”

 

“E isso que nos interessa?”

Pausa.

A guarda examina cada candidato.

“Isso, isso! Batei com a cabeça dura

Contra a pedra secular deste castelo.

Vejamos quem é o mais persistente...”

 

“Ó da guarda! Que espera,

que eternidade!

Reparai nesta genética sadia

que aqui vos apresento!

Vem de geração passada,

enfrentou mar e vento,

vírus e gargalhada,

solares dias e relento!

Olaré! É de qualidade!”

 

“Bem o sinto...

bate fundo a tua genica.

Melhor pretendente

por aqui não se apresenta

do que este comerciante?

Não?

Pois entra,

vem ser a nossa

caríssima metade...”

E diz a guarda para si,

“Coitado, mal suspeita

que passará muito outro vão dia

procurando união com metade

tão perfeita quanto esta...”

E voltando-se para os de fora,

“Ide-vos!

Terminou a vossa época;

vede quão curta é a glória!”

 

Cabisbaixo, afasta-se cada zóide

e, deles, o mais filósofo,

– o único desse género

que havia chegado à porta

do que pensavam ser fortaleza –

na sua vasta cabeça elabora,

“Se eu não tivesse vindo,

como tal o saberia?...”