Tuesday, 21 February 2006

Um projecto de pessoa - quarto acto

Um projecto de pessoa








Quarto Acto









[Que fique registada a contenção do autor das linhas que se seguem em não perverter a numeração por extenso deste acto, em não adicionar ou remover sujeitos ou adjectivos qualificativos, em manter este quarto intacto, em que, talvez, o bebé venha a nascer.]







Apetece-me chorar por todo o mundo e, assim, poupar-lhe o choro e dar-lhe uma cara risonha, lavada, como qualquer ruela triste de uma cidade suja após intensa noite de chuvada, agora revista no ofuscamento do reflexo que o sol imprime numa gota. Pelo menos até que um qualquer bebé chore de novo, desta feita para limpar os pulmões e respirar pela primeira vez, reclamando o seu direito a um pouco de espaço, a um pouco de oxigénio. Apetece-me chorar para que o mundo não chore por uma fracção de segundo. E se for preciso matar para que o mundo não mate uma fracção, oh, mata-me. Pouco importa.





Mas que esta lágrima não seja em vão. Que o fraccionado sorriso que te proporcionei seja o começo de uma risada que poderás soltar no fundo da depressão, nesse quarto vazio e escuro em que te encerras antes de te elevar de novo. E, se chorei tarde demais, se já estás morto antes de te teres sequer erguido num gargalhar bem sonoro e intestinamente agitador, deixa-me rir por ti. É que temo não poder rir depois de defunto.





Deixei escorrer a lágrima.


E outra.


E outra.


Afinal é quase só água.


É como a chuva, mas salinizada.


Mais branda.


Mais relaxada.


Seria mesmo chuva se o meu ser fosse já nuvem.





Bah! Foi em vão.





Tal como necessito de substância para alimentar a fome primária do corpo – o qual recuso separar do espírito, mais do que não seja porque toda a experiência sensória seria diferente caso o corpo diferente fosse, modificando o espírito e vice-versa – a fome seguinte necessita de um riso, mas de um riso sério, para levar para a frente ou modificar positivamente o que em geral pode ser chamado de grande absurdo, que é este facto de sermos talvez os únicos animais que têm ou podem vir a ter consciência de que a sua existência não tem nenhum propósito, e que isso é simplesmente fascinante pois estamos livres para descobrir este mundo complexo sem qualquer complexo anterior a nós próprios. Alto! Foi dito, “nós próprios”! Nós próprios e os nossos próprios nós! Lá vem a gargalhada! Ah, como se nós próprios não fossemos o resultado dessa equação gigantesca de tudo o que nos foi incutido, impresso por tudo o que nos rodeia nessa experiência sensória que é viver (embora seja bem mais confortável dizer que a culpa é de um determinado astro em conjunção com outro, e ao facto de termos nascido numa determinada época à qual nem se adicionam as condições climatéricas e variáveis, porque, compreenda-se, pondo de parte todo o resto, aí a equação torna-se realizável e finita no tempo útil de nos cobrarem por um livro ou por consulta que irá modificar o resto das nossas vidas, fazendo-nos esquecer de uma imensidão de influências das quais nem nos podemos lembrar porque, não só não cabe no nosso cérebro, como também não as podemos ter conscientemente presentes por puro desconhecimento. Ou, então, podendo, incluímos uma boa parte da gigantesca equação no consciente e vivemos alegremente numa camisa de forças que tem a suprema vantagem de ser gratuita, isso, claro está, no contexto de uma economia de mercado e de um Estado benfeitor). Enfim... não é sedutora a explicação plausível das coisas?





E, se mais razões para rir não houvesse, riria profundamente de ver-me no futuro a rir de tudo o que ri e do quanto estava errado – bendito seja o arrependimento. A vantagem de rir é que faz tanto sentido que seja feito no quarto como fora dele, o que é como quem diz que faz sentido unicamente em todo o lado. No resto do tempo, choro, grito, aprendo, desaprendo, aprendo, esqueço, ignoro, ignoro, ignoro, ignoro, e sobretudo esqueço, pois tudo foi mandado para o fundo da memória (e a culpa não foi minha, juro). Quando rir de novo, baralharei tudo isso, e o que daí vier à tona que venha por bem. E feliz parto!