Tuesday, 14 February 2006

Um projecto de pessoa - primeiro acto

Um projecto de pessoa

 

 

Primeiro Acto

 

 

Um projecto de pessoa principia.

 

O ovário é mãe e pai do óvulo,

é o protector invólucro.

É a primeira urna.

 

Canalizado, vai o comunitário esperma

a votos, sem segunda volta.

Qualquer zóide solitário jamais lá chegaria.

Faltar-lhe-ia aquela força favorecedora

que se encontra na irmandade.

Defendem todos a mesma causa.

São partidários do partido

forçado ou eleito,

amado ou Imposto

sobre o rendimento múltiplo.

E ei-los que chegam à sala do trono.

 

“Quem vem lá? Apenas um penetra!”

logo a guarda os interpela,

“Não se nasce em democracia!”

 

“Que espécie de tirania é esta?!

Nova penetração após penetração?

Este ser zóide é ser-se super-atleta!”

 

A guarda logo retorque,

“Ordem na hoste, seres de cabeça quente!

Aqui só um entra (se a guarda não estiver distraída...).”

 

“E qual é o vosso critério de entrada?”

 

“É abstracto,” a guarda sentencia.

 

“Rapazóides, bem vos disse

que este castelo era feminino!

Mas, formosa guarda,

deixai-me ser o escolhido.

Fui o mais rápido,

o mais afoito!”

 

“E isso que nos interessa?”

Pausa.

A guarda examina cada candidato.

“Isso, isso! Batei com a cabeça dura

Contra a pedra secular deste castelo.

Vejamos quem é o mais persistente...”

 

“Ó da guarda! Que espera,

que eternidade!

Reparai nesta genética sadia

que aqui vos apresento!

Vem de geração passada,

enfrentou mar e vento,

vírus e gargalhada,

solares dias e relento!

Olaré! É de qualidade!”

 

“Bem o sinto...

bate fundo a tua genica.

Melhor pretendente

por aqui não se apresenta

do que este comerciante?

Não?

Pois entra,

vem ser a nossa

caríssima metade...”

E diz a guarda para si,

“Coitado, mal suspeita

que passará muito outro vão dia

procurando união com metade

tão perfeita quanto esta...”

E voltando-se para os de fora,

“Ide-vos!

Terminou a vossa época;

vede quão curta é a glória!”

 

Cabisbaixo, afasta-se cada zóide

e, deles, o mais filósofo,

– o único desse género

que havia chegado à porta

do que pensavam ser fortaleza –

na sua vasta cabeça elabora,

“Se eu não tivesse vindo,

como tal o saberia?...”