Um projecto de pessoa
Primeiro Acto
Um projecto de pessoa principia.
O ovário é mãe e pai do óvulo,
é o protector invólucro.
É a primeira urna.
Canalizado, vai o comunitário esperma
a votos, sem segunda volta.
Qualquer zóide solitário jamais lá chegaria.
Faltar-lhe-ia aquela força favorecedora
que se encontra na irmandade.
Defendem todos a mesma causa.
São partidários do partido
forçado ou eleito,
amado ou Imposto
sobre o rendimento múltiplo.
E ei-los que chegam à sala do trono.
“Quem vem lá? Apenas um penetra!”
logo a guarda os interpela,
“Não se nasce em democracia!”
“Que espécie de tirania é esta?!
Nova penetração após penetração?
Este ser zóide é ser-se super-atleta!”
A guarda logo retorque,
“Ordem na hoste, seres de cabeça quente!
Aqui só um entra (se a guarda não estiver distraída...).”
“E qual é o vosso critério de entrada?”
“É abstracto,” a guarda sentencia.
“Rapazóides, bem vos disse
que este castelo era feminino!
Mas, formosa guarda,
deixai-me ser o escolhido.
Fui o mais rápido,
o mais afoito!”
“E isso que nos interessa?”
Pausa.
A guarda examina cada candidato.
“Isso, isso! Batei com a cabeça dura
Contra a pedra secular deste castelo.
Vejamos quem é o mais persistente...”
“Ó da guarda! Que espera,
que eternidade!
Reparai nesta genética sadia
que aqui vos apresento!
Vem de geração passada,
enfrentou mar e vento,
vírus e gargalhada,
solares dias e relento!
Olaré! É de qualidade!”
“Bem o sinto...
bate fundo a tua genica.
Melhor pretendente
por aqui não se apresenta
do que este comerciante?
Não?
Pois entra,
vem ser a nossa
caríssima metade...”
E diz a guarda para si,
“Coitado, mal suspeita
que passará muito outro vão dia
procurando união com metade
tão perfeita quanto esta...”
E voltando-se para os de fora,
“Ide-vos!
Terminou a vossa época;
vede quão curta é a glória!”
Cabisbaixo, afasta-se cada zóide
e, deles, o mais filósofo,
– o único desse género
que havia chegado à porta
do que pensavam ser fortaleza –
na sua vasta cabeça elabora,
“Se eu não tivesse vindo,
como tal o saberia?...”