Tuesday, 5 February 2013

Ao café da manhã o primeiro


Negro, e de negro obreiro,
usado como pretexto dum encontro
ou, num encontro, como entretimento,
sabes a África e a sal num veleiro.

A tua substância é viciante,
o teu vigor fumega da chávena
e reclama por beleza pristina.

E na cafeteira solidifica-se teu vestígio,
e a realidade é que se me modifica.




_____

imagem por Gerry Ungaro
http://tinyurl.com/kc7qcsy 


Thursday, 31 January 2013

Bateu uma saudade, diz-se no Brasil

Bateu uma saudade, e eu, que não sou reservado, abri-lhe a porta.
Pensava que as saudades eram cinzentas, e ei-la; multicolorida.
Pensava que doíam ou eram de índole aflita. Ora esta entrou serena.
Sentou-se no sofá e sorriu. De tão elegante, ganhou o meu pasmo.
-- A que devo tão inesperada visita?
-- Converti-me às Testemunhas de Jeová. Sou a mais bem sucedida.


Coisas que ainda não aprendi – II

Não dar significado a qualquer sinal até que este se verta em sonoro.
Colocar rolha cor-de-rosa no buraco que liga o neurónio à boca.
Colocar rolha no olho que liga ao buraco cor-de-rosa.
Em assunto sério, ludibriar o riso.

E soma, e segue.


Tuesday, 29 January 2013

A teoria da rolha

E se no princípio verbo houvesse,
o nosso verbo desde verde idade
seria comer, do substantivo fome,
da constante finita sempre.

Nesta actualidade, a mesa repleta
presenteia-nos fotografia animada,
e de passada época se aprecia
literatura, escultura, e pintura.

E antes, sem sequer sabermos
o que somos, oferecem-nos
deuses e demónios expiatórios,
energias imensuráveis.

Se dúvida não há é a do buraco,
que, por muito que se coma, algo
se nos esvazia. E daí a míngua,
e a suprema teoria da rolha.