Monday, 24 January 2011

E Abstenho-me de Mais Declarações

Chamo-me Abstenção da Urna.

Eu é que ganhei as eleições presidenciais, com o segundo candidato recebendo apenas 25% dos votos.

Por isso, eu é que tenho legitimidade para fazer silêncio sobre todos os assuntos, e a obrigação em génese de não comentar.

Se quiserem pôr escutas nos telefones ou interceptar a minha correspondência electrónica, façam-no: descobrirão nada.

Eu é que sou pura, e nem necessito nascer segunda vez para apresentar sempre um registo imaculado.

Irei reduzir a despesa da presidência da república para valores recordes. E jamais apelarei a que reduzam as despesas públicas enquanto eu aumento aquelas sob minha responsabilidade, como o fez o candidato que derrotei.

Nunca empossarei a minha prima, Demagogia da Urna, em qualquer cargo, ao contrário dos meus adversários.

Eu é que irei arejar o Palácio de Belém como ninguém o fez, apenas com oxigénio, e um mínimo de poluição atmosférica para dar um pouco de cor.

Podem acusar-me de pouca inteligência, mas dessa nem vestígios possuo.

A mim a presidência!

 

 

Sunday, 23 January 2011

O que ao povo preside

Se, como se suspeita, o Sr. Silva for o recipiente — não salvando o seja, como se verá — do maior número de votos, temos que a maioria dos portugueses é favorável à evasão fiscal, pequena corrupção, transacções accionistas de fazer inveja ao Madoff, aprecia personalidades paternalistas e na linha demo(crático)-cristã de mães na cozinha, filhos obedientes, ai ai ai, ajude-se os pobrezinhos por instituições que não as estatais.

 

Pensando nisso, é essa a realidade da maioria portuguesa. A duração do Estado Novo prova-o.

 

Se a ordem de abrir fogo, dada na Rua do Arsenal em 1974, tivesse sido cumprida, acabando com aquele punhado de tropas maltrapilhas, talvez ainda estivéssemos num Estado no máximo Renovadito mas sempre Abençoado. O povo teria voltado a casa após um fogo-de-artifício tão real, e no dia seguinte a vida continuaria sob o patrocínio dos que pensam por nós, benditos sejam, guarde-os Deus.

 

O povo.

 

Que o Sr. Silva enfie bem esses votos no seu orifício excretor.

 

Não por uma questão escatológica mas sim lógica: os votos ficariam com o seu popular e verdadeiro odor.

 

 

 

Friday, 21 January 2011

O Movimento Neutralizante

A eleição de Dilma Vana Rousseff para o cargo presidencial do Brasil levantou a seguinte questão linguística:

E agora, meus amigos e minhas amigas, é a presidente ou a presidenta?

Li algumas teses sobre o assunto, mas falhei ser convencido por qualquer. E bem que tentei.

Prefiro pegar em substantivos masculinos e femininos terminados em -ente que impliquem uma função ou actividade, e ilustrar ao que me objecto:

---> o/a concorrente, o/a crente, o/a ausente, o/a delinquente, o/a pretendente, o/a paciente.

Que é como quem diz: 

---> neutro, neutro, neutro, neutro, neutro, neutro.

Ou, em economia linguística: neutro.

E o mesmo seria se a terminação fosse em -ante:

---> o/a meliante, o/a viajante, o/a comediante...

E em -inte?

---> o/a pedinte.

Segundo esse padrão, a Senhora Presidente que me perdoe os votos de sucesso em atraso... E espero que não queira ser antes a presidenta de todas as brasileiras que exerçam actividade tão fascinante quanto a das feirantas, das docentas, das pedantas, ou até das bandeirantas!

Ora, façam o favor de se neutralizar.