Friday, 20 April 2007

Sou aquilo que guardo

Ao Ricardo Cabral, pelo seu inquérito tão consulta:

http://ricardodc.multiply.com/journal/item/221

 

 

Sou aquilo que guardo.

Chamam-lhe memória ao cadafalso

de onde prisioneiros gritam:

— Libertem-me a mim!

Tarefa impossível é

libertar todos pela única porta,

num único momento presente,

enquanto, novo, outro entra.

 

Reunidos no pátio da lembrança,

conta-se qual o seu número.

Que coisa extraordinária!

É comum um em cada cada

que sob nova contagem clama:

— Eu nem existi!

(A etimologia de cadafalso?)

 

Assim, num único golpe

de Alzheimer lento

ou de morte em plena faculdade,

voltarei à coisa que nasci.

Por isso ainda julgo,

encerrando a porta de aço,

que, não sendo do meu comando

o prisioneiro que entra ou o que sai,

essencial é o que deles faço.

 

 

Saturday, 7 April 2007

Ditos para usar em transacções humanas e afins

 


Quando disse que te amava, estava a brincar comigo mesmo.


 


O maior problema da intimidade é passarem a saber muitas coisas sobre nós que nunca nos passaram consciente ou inconscientemente pelo cérebro, mas agora com uma certeza profunda.


 


Desligar as luzes enquanto se faz amor é um acto amigo do ambiente, apesar dos consumos extra de imaginação e do sistema nervoso sensível.


 


Tu bem sabes, mas eu relembro-te que o membro rijo ao acordar não é prova de que o homem ao teu lado sonhou contigo.


 


Em termos de correspondência, o silêncio jamais foi sinal de assentimento. Na maior parte das vezes, será sinal de desaprovação para lá do que é humanamente correcto manifestar. Das outras vezes, poderá ser feliz ou infeliz pasmo temporário. Há ainda uma ligeira probabilidade de que o interlocutor tenha falecido.


 


 


 


 

Sunday, 1 April 2007

Spare me a few lines of attention, you pederast


                                             There is some soul of goodness in things evil
                                             Would men observingly distill it out.
                                                                  —William Shakespeare's Henry V


Spare me a few lines of attention, you pederast.
And you, paedophile.
Next time you cannot control your lust,
and control your words to subdue the infancy of a mind,
after quenching your primal thirst,
I would like to ask you a favour: murder that child.

You are right, you would probably get a life sentence;
much longer a time that would be than I dare to write.
Yet think of the benefits that you would bestow
upon the victim of your urge.

The prey would not grow into ruins,
would not wake up sweating out
distorted functions for penis, anus
and vaginayes, cock, ass and cunt.

And if you think it is unjust to put a term
to such a springful shape, your yearn,
I think of one more option.
But if you cannot put an end to your life,
do me a favour: murder that child.




Carta por encomenda de uma mulher que queria ser sonhada

  

      Meus cabelos nos seus dedos...

      ...Meus dedos os seus cabelos,

      seus dedos nos meus cabelos...

      ...Que longas unhas as dos seus cabelos.

                                     Poeta incógnito






Não sei se adormeci. Deitei-me

e pensava porque não pensava em ti.

Sem saber que pensar é sonhar acordado,

acordei sobressaltado do que sonhando pensei.

Sobressaltado porque pensei que saltavas sobre

o meu corpo que jazia inútil pensando se sonhava

contigo – ou seria meu pasmo o de amor e embasbacado

sonhava que pensava que saltavas sobre mim porque quero

e não me mexo nem fujo nem que pudesse e não posso

e essa pressão que a exerces no meu corpo se esse é

o meu corpo ou o meu ânimo e se estou de acordo.

Lesmamente, debaixo do meu tórax ora do teu,

regressou a ordem das coisas. E o mundo

não se importou quando te aspirei

um que ainda trago de cheiro,

e que dele cheio não sei

se me deitei. Adormeci.