Friday, 20 April 2007

Sou aquilo que guardo

Ao Ricardo Cabral, pelo seu inquérito tão consulta:

http://ricardodc.multiply.com/journal/item/221

 

 

Sou aquilo que guardo.

Chamam-lhe memória ao cadafalso

de onde prisioneiros gritam:

— Libertem-me a mim!

Tarefa impossível é

libertar todos pela única porta,

num único momento presente,

enquanto, novo, outro entra.

 

Reunidos no pátio da lembrança,

conta-se qual o seu número.

Que coisa extraordinária!

É comum um em cada cada

que sob nova contagem clama:

— Eu nem existi!

(A etimologia de cadafalso?)

 

Assim, num único golpe

de Alzheimer lento

ou de morte em plena faculdade,

voltarei à coisa que nasci.

Por isso ainda julgo,

encerrando a porta de aço,

que, não sendo do meu comando

o prisioneiro que entra ou o que sai,

essencial é o que deles faço.