Thursday, 17 December 2020

Crispy Gold

 


Tuesday, 10 November 2020

A Cada Um o Seu Nome

Os nomes dos animais de estimação deveriam ser dados consoante as primeiras coisas que fizessem que tivessem piada ou fossem memoráveis.

Exemplos: o gato mia muito, fica Queixinhas. Perseguiu uma mosca, Moscavita. Caiu dum degrau, Suicida. 

Isto não é original e devia-se aplicar a humanos também. Aparentemente as tribos nativas da América do Norte utilizavam este sistema para pessoas. Os membros da tribo tinham um nome de infância e outro de adulto.

No meu caso, por exemplo, descobriram que eu deixava de chorar se me deitassem de barriga para baixo. Logo o meu nome de infante deveria ter sido Barriga Chata. 

Infelizmente, o meu nome de adulto seria Parvo & Chato. Por vezes, ambos em simultâneo.


Monday, 26 October 2020

Recordações já secas


Há vinte anos que não compro uma mola,

apanhando as abandonadas no bairro,

qual coleccionador de seixo ou concha.


Diriam os vizinhos que era sexo ou coxa,

recordando-se do variegado cabelo 

da vária moça que à porta me batia.


Nesses tempos de gratuita hospitalidade,

recebi de vários cantos do mundo gente,

enquanto dos vizinhos recebia ex-mola.




Saturday, 9 May 2020

A Arte da Pesca

Por anzol um ponto de interrogação,
Um único fio de seda por linha,
Por carreto pedaleira de bicicleta,
Uma antena extensível por cana,
Por mar todo o ar que nos rodeia.

Espetado o verbo no anzol,
A linha não pode ser embaraçada,
Não se deve forçar o carreto,
A cana tem que estar bem esticada,
E pesca-se sempre em silêncio.





Thursday, 16 April 2020

Conselhos de um Ribatejano para Toiros, Touros, Bois, Bous, e Vacas

S
e investires contra um ribatejano, convém que tenhas cornos mais afiados do que um touro. 

É que a bestas como tu está ele habituado desde petiz e, como a essas, responder-te-á das seguintes maneiras: Ou acena uma capa para te chamar, e, na investida, desvia-se e deixa-te frustrado no ar marrando; ou chama-te pelo nome de corno que tiveres e, na investida, desvia-se e espeta-te um par de bandarilhas no lombo, que é para urrares mais e, em acrescento às tuas dores, sangrares; ou, se fores bem marrante, foge de ti, salta a barreira, e dás de tromba rija na ainda mais rija madeira; ou, se fores persistente, agarra-te pelo pescoço até que cansado te estanques.

Se o ribatejano estiver a cavalo, não invistas que é cobarde. Perda de tempo a tua: Ele é só maneirismos e fogo de vista; tem pena da besta tua irmã debaixo do seu cú selada.

Para vencer um ribatejano, dá-lhe copos de vinho, e pedaços de pão e toucinho. Põe-lhe a mão nas costas, chama-lhe amigo, e, quando ele torpe estiver, espeta-lhe no cachaço as próprias bandarilhas.



foto: http://basta.pt/infancia-sem-violencia/






Tuesday, 25 February 2020

Ode ao nigiri de sardinha

Não se desdenhe primeiro a ostra 

que nos desagua o mar no palato,

o mesmo mar que te criou, 

do qual foste colhida e,

esventrada, de ti sacado o lombo,

o teu deslumbre, ó nigiri de sardinha!


Apenas depois de provar-te

podemos entender aquele fenómeno:

o frenesim de tubarão, golfinho, e pássaro

em redor do teu novelo vivo,

investida após investida devorando;

minguando o teu novelo,

e o frenesim aumentando.


Trincar-te é sentir a pimenta e o sal 

a fazer amor com a língua portuguesa 

que te prova e aprova, e te reconhece, 

como um amante que sabe amar,

comer-te, e ao comer-te ser devorado

e ver elevado o espírito a um píncaro de alegria,

por muito que esteja cansado.


* * *