No contexto da crise nacional, tem vindo à tona dos comentários a resignação portuguesa perante medidas políticas que bem podem ser designadas como actos de extorsão.
Tal como em ocasiões anteriores, um dos autores chamados à colação por bloguistas e chato-emailistas é Guerra Junqueiro. No final do século XIX, a sua impressão sobre a classe inferior portuguesa era a de:
Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas.
à qual me apetece contrapor uma ideia do seu contemporâneo Eça de Queirós:
A criança portuguesa é excessivamente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os Portugueses, só começamos a ser idiotas quando chegamos à idade da razão. Em pequenos temos todos uma pontinha de génio.
Para o meu ser possivelmente pensante, a nossa mansidão bovina parece fruto, infelizmente, da necessidade de sobreviver ao longo da história sob figuras autoritárias. Do tipo das que usaram marinheiros para aprimorar a pontaria (1). Ou das que se lembravam de um qualquer pretexto para lançar à fogueira mais um pobre consumidor de oxigénio (2). Se isso foi num passado recente, imagine-se o que era necessário para sobreviver em eras mais remotas.
O Sr. Silva, no exercício da sua pura presidência, já por mais de uma vez mostrou o seu apreço pelos seres bovinos. Em particular as vacas. E em especial aquelas que se deixam ordenhar deleitadamente por robôs mecânicos (e frios). Qualquer semelhança entre essas vacas e a população portuguesa, ou semelhança entre taxadores sob influência de um qualquer frio panfleto ideológico e os robôs, é uma triste alegoria de não deitar fora.
A RTP apanhou à janela, no passado sábado dia 15 de Outubro, uma funcionária pública que representa bem o nosso povo. Perguntaram-lhe sobre o subsídio de férias e de natal que lhe tinha sido extraído. Com um sorriso nos lábios, encolheu os ombros como quem diz “Deus me o deu, Deus me o tirou" dizendo de facto, "O que se há-de fazer, não é?" Ora que merece gente assim? Caridade. Da que é praticada pela Igreja. Da que tanto sossega por benemerência a consciência de ricos financiadores. Da que sem a qual a instituição religiosa parece desprovida de conteúdo funcional. E a caridade só é necessária quando a solidariedade já não existe.
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(1) O sobrinho de D. João V divertia-se com armas de fogo no Terreiro do Paço tendo por alvo os macacos no galho, o que naquela área é o mesmo que dizer os marinheiros empoleirados nos mastros dos navios ancorados, ou dos que passavam cerca da margem.
(2) Inquisição portuguesa (1536-1821).
