Para A.M.F., minha querida amiga
Queria dizer-te, não dizendo,
que acordei contigo na mente
mais cedo do que deveria,
que seria às quatro da tarde
o meu despertar, mas acordei
exactamente no meio do dia,
do meio do sonho,
o sonho mais alvo e doce
de que me lembro.
Queria dizer-te que te encontrei
nesse sonho e falámos da vida,
e a tua era triste.
Aquele homem tinha-te deixado,
e digo-te que todo esse sonho
do qual acordei sobressaltado
se esvai da minha memória
mais rápido do que aqui te digo.
Queria dizer-te que aquele corpo
sonhado que seria teu não o era,
era um corpo representado,
o teu espírito,
pelo meu,
e que de mim não me recordo.
Ui!... e que corpo!
Tudo era branco nesse sonho
e sei porquê, não o sabendo.
Digo-te que, consolando-te,
acabámos por nos abandonar ao outro.
Sentia-se o mar na proximidade?
Então, eu em ti ou tu em mim, lá,
surgiu uma poesia que no sonho
te declamei no momento
e antes do momento em que acordei,
e quase de nenhuma palavra me lembro.
Sabes que rimava?
Sei apenas o que senti; raios, acordei!
Forte foi, e terno.
E digo-te tudo isto antes de a Morfeu
me entregar de novo
sabendo de antemão que não sonharei
o mesmo novamente.
É por isso que te digo o que não posso,
ou tento,
o que a memória preservou —
só afecto.
Digo-te que sei porque te sonhei.
Nesse dia, o meu irmão que te ama,
que creio nunca ter feito algo
tão constantemente como amar-te,
pediu-me o teu número
na de contactar-te ânsia.
Não sei, mas julgo que, nesse dia,
o meu irmão que te ama
recordava o seu passado
e, nesses afectos misturado,
distraiu-se e extraiu-te
para a superfície da memória.
E eu o que fiz? Na consequência,
renasci-te nesse sonho,
criando um cenário que não existiu
e não existirá. (Há certezas, não há?)
Ah!... e gargalhadas!
A parte séria é a seguinte,
que, nesta memória afectiva,
te amei mais do que com veia
ensanguentada,
e que, na parte acordada
que partilhei contigo,
me senti entendido,
falando pouco,
no teu sorriso e na tua mirada.
Disso tudo que carrego
para lado nenhum, gravado
com electricidade em carne,
de leve, levo-te.
Lisboa, 11 de Outubro de 2005, das 12 às 13 horas.