Um projecto de pessoa
Quinto Acto
Extracto da memória do Diário Íntimo Intra-uterino:
Imagino que uma vida até que poderia ser uma viajante luz no espaço negro, consumindo matéria. O passado seria então como a cauda do cometa, com restos desgastados que se vão libertando na imensa escuridão que nos sidera, a cauda dessa chama apenas gravada na memória. E que, com destino errante, a trajectória sofreria de influências da gravidade de tantos astros e outros viajantes que com essa luz embateriam. Ou que a luz errante embateria neles. E que os choques seriam mínimos ou exponencialmente mais máximos. E que várias luzinhas geradas por algum potente embate seguiriam a sua própria trajectória, com parte da matéria prima da matéria que lhes deu origem. Ou que as luzes viajariam lado a lado como duas cordas de guitarra a vibrar por simpatia, até que ou se as suas trajectórias fossem alteradas, por força da matéria própria ou por força da alheia. E que o trajecto não seria para cima nem para baixo, nem para a esquerda nem direita, pois não haveria um ponto fulcral de referência, um super astro que tivesse gravidade suficiente. E que umas luzes, por acaso das influências, iriam dirigir-se em rota de colisão e estatelar-se na superfície amorfizante de um sol amarelo, enquanto que outras na de sóis negros. E que umas luzes tentariam abrandar a marcha mas outras tentariam ir mais depressa. E que umas pensariam para onde iam e projectariam o possível trajecto futuro, e que as outras iam e chegariam na mesma, em diferente estado ou condição. E que tudo isso poderia ser alterado nem sempre por vontade própria. E que as luzes teriam várias tonalidades, mais vermelhas na aproximação e mais azuis no afasto. E teriam quantidades em proporções variáveis de verde ou laranja, amarelo ou violeta. E completamente negra não haveria nenhuma, a não ser o espaço vazio por onde se havia consumido. E que teriam cheiro, consoante a matéria que ardia.
E depois preenchi um quadrante negro de espaço com biliões dessas luzes viajantes, errando por aqui e por ali, e pareceu-me ver a via láctea, e no buraco negro o lado de dentro de uma teta.
Era um tecido com padrão. Tal como o do pano da cozinha. Se eu estivesse em casa e não nesta materna barriga, iria lavar pratos, centrifugar roupas, varrer o chão e aspirar, sempre aspirar.