Um projecto de pessoa
Terceiro Acto
Passaram alguns dias aqui no ventre-mãe. Estamos observando com atenção todo o desenrolar da cena. Creio que viemos sete ou oito, para não perder um movimento. Enquanto uns descansam os outros registam. A todos não nos vemos; é difícil movimentar-mo-nos neste líquido amiótico, sem esquecer a quietude que nos impomos para perturbar ao mínimo este ser que se desenvolve. Sei que uns registam dados genéticos, aqueloutros bacteriológicos. Havia uns que estavam autorizados a intervir numa qualquer malformação, salvando o ser de penas futuras. E eu sou apenas um observador com uma tarefa curiosa. Estou à espera da chegada da alma.
Foi difícil este desaprender a inspirar oxigénio. Nem sei se algum de nós terá sucumbido nessa tarefa de desaprender. O nosso desempenho nas aulas teóricas e práticas foi bem mais fácil, e era-nos dada a possibilidade de errar. Mas isto agora é a realidade.
Não sei como estão os colegas a lidar com todo este assunto da espera. Espero bem que estejam melhor do que eu. Para manter-me desperto e lúcido, redijo mentalmente um Diário Íntimo Intra-uterino. Nunca antes redigi algo de tanta profundidade e em ambiente tão sereno quanto este.
As entradas nesse diário são de ordem vária, sendo exemplo esta dicotomia dos ditados que se alvitram a torto e a direito no mundo exterior: “Quem espera desespera”; “Quem espera sempre alcança”. Aqui, nesta redoma de silêncio marinho, neste espaço protegido e acarinhado com amor primordial (primeira ilusão do amor julgado divino?), Quem espera está esperando, mas nem por isso parado.
Segue a espera; nova entrada no Diário: A alma ainda não se manifestou. Talvez seja necessário esperar que este ser amorfo que nos faz face atinja os seis meses idade, altura em que o seu cérebro estará formado e os primeiros sonhos entrem em fase REM. Remos, remar, neste mar amiótico. Os sonhos de água. Os ruídos exteriores e não compreendidos por falta de conhecimento do código que lhes dê sentido. A mãe ri, todos chocalhamos. Chiu! Dorme, bebé, dorme.