Thursday, 16 February 2006

Um projecto de pessoa - segundo acto

Um projecto de pessoa


 


 


Segundo Acto


 


 


Cai o pano da seriedade. Muda-se o cenário como se muda de casaco. Pior, como quem muda de saia – simile melhor para o pano que cai e o cenário que se muda. Despedem-se os actores do acto passado. Não pela sua fraca representação, que o foi, mas porque doravante desnecessários. E, não, não vão ser contratados de novo; podem até estar famintos. Não serão repescados; não, não são arraia miúda. É que este é mais um acto de vida. O que foi não volta. E não há regresso. Que se desiludam os místicos da reencarnação e passem a viver com mais vida a única vez que existem nestes moldes supra superiores ao barro, que é apenas um dos seus menores constituintes. No máximo, espera-os a reciclagem dos seus ex-constituintes na formação duma qualquer outra forma de vida. E que não esperem perdão dos seus atentados contra a vida num momento ulterior. E, se têm dúvidas sobre o assunto, que perguntem a uns sacerdotes porque se suicidaram após terem sido incriminados de pedofilia, perguntem a esses iniciados no mistério o que é o perdão divino, o que os espera pós-vida, pós...


 


“Que vem a ser isto?!”


 Entra um personagem não escrito, imiscuindo-se neste acto.


 “Ó anotação em destempo, já entrei!”


 Antecipaste-te.


 “Mantém-te no teu lugar, como boa indicação de palco que és!”


 Pausa.


 “Não entendes... Toma lá em curto discurso directo: CALA-TE!”


 Silêncio.


 “Peço-lhes que ignorem aquelas linhas que nem diálogo são e que apenas adiam o inevitável: o interromper da aberrante descrição desta cena.”


 Imiscuído: “Vejam, mudou de estratégia... Agora introduz o meu discurso e atribui-me um nome que pretende ser ofensivo... Pobre texto...”


 Imiscuído (fingindo que ninguém o pode ouvir, emulando os pensamentos em voz alta): “Ah! Não desiste... Quer moldar-me a realidade... Alguém do público sabe como domar mero texto que se vai mutando em contraponto ao que pretende o actor principal – mais! – o único actor?...”


Imiscuído (apercebendo-se que afinal a sala está vazia e que, em alternativa, a telepatia tem algo de patológico): “Arre!... Desisto eu!”


Sai de cena.


...


Pausa.


...


Outra pausa.


... 


Silêncio.


... 


Um verdadeiro silêncio.


... 


Daqueles em que só se ouvem todos os ruídos excepto o da voz humana.


... 


Se estivesse alguém presente possuidor de um ouvido humano para o ouvir.


... 


E de uma mente vagamente humana para disso se aperceber.


... 


Sim, cada acto tem uma única cena.


... 


Irreversível.