Um projecto de pessoa
Segundo Acto
Cai o pano da seriedade. Muda-se o cenário como se muda de casaco. Pior, como quem muda de saia – simile melhor para o pano que cai e o cenário que se muda. Despedem-se os actores do acto passado. Não pela sua fraca representação, que o foi, mas porque doravante desnecessários. E, não, não vão ser contratados de novo; podem até estar famintos. Não serão repescados; não, não são arraia miúda. É que este é mais um acto de vida. O que foi não volta. E não há regresso. Que se desiludam os místicos da reencarnação e passem a viver com mais vida a única vez que existem nestes moldes supra superiores ao barro, que é apenas um dos seus menores constituintes. No máximo, espera-os a reciclagem dos seus ex-constituintes na formação duma qualquer outra forma de vida. E que não esperem perdão dos seus atentados contra a vida num momento ulterior. E, se têm dúvidas sobre o assunto, que perguntem a uns sacerdotes porque se suicidaram após terem sido incriminados de pedofilia, perguntem a esses iniciados no mistério o que é o perdão divino, o que os espera pós-vida, pós...
“Que vem a ser isto?!”
Entra um personagem não escrito, imiscuindo-se neste acto.
“Ó anotação em destempo, já entrei!”
Antecipaste-te.
“Mantém-te no teu lugar, como boa indicação de palco que és!”
Pausa.
“Não entendes... Toma lá em curto discurso directo: CALA-TE!”
Silêncio.
“Peço-lhes que ignorem aquelas linhas que nem diálogo são e que apenas adiam o inevitável: o interromper da aberrante descrição desta cena.”
Imiscuído: “Vejam, mudou de estratégia... Agora introduz o meu discurso e atribui-me um nome que pretende ser ofensivo... Pobre texto...”
Imiscuído (fingindo que ninguém o pode ouvir, emulando os pensamentos em voz alta): “Ah! Não desiste... Quer moldar-me a realidade... Alguém do público sabe como domar mero texto que se vai mutando em contraponto ao que pretende o actor principal – mais! – o único actor?...”
Imiscuído (apercebendo-se que afinal a sala está vazia e que, em alternativa, a telepatia tem algo de patológico): “Arre!... Desisto eu!”
Sai de cena.
Pausa.
...
Outra pausa.
...
Silêncio.
...
Um verdadeiro silêncio.
...
Daqueles em que só se ouvem todos os ruídos excepto o da voz humana.
...
Se estivesse alguém presente possuidor de um ouvido humano para o ouvir.
...
E de uma mente vagamente humana para disso se aperceber.
...
Sim, cada acto tem uma única cena.
...
Irreversível.