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Saturday, 25 February 2006

Provérbios e Citações - Ruy Duarte de Carvalho

Ruy Duarte de Carvalho (n.1941), antropólogo e professor, leccionou nas Universidades de Luanda, Coimbra e São Paulo. Português de origem, mas angolano por vocação e opção ("O nosso país é aquele com o qual o nosso destino se mistura"), iniciou a sua obra poética em 1972 com Chão de Oferta. Além de poesia, publicou diversas outras obras, das quais se destacam Vou lá visitar pastores (1999), Os Papéis do Inglês (2000) e As Paisagens Propícias (2005).

Tanto a introdução ao autor como os textos que se seguem foram extraídos da sua obra Lavra - Poesia Reunida 1970/2000, Cotovia, 2005. Tive o privilégio de ter colaborado na adaptação da sua obra Vou lá visitar pastores para teatro, da autoria de Rui Guilherme Lopes, com excelentes críticas mas de pouca duração, devido ao pouco reconhecimento que Ruy Duarte de Carvalho obteve até ao momento junto do público português (depois do seu falecimento as coisas irão melhorar bastante). Ó Rui sem ípsilon, quão doloroso foi cortar o Ruy!... Ó Ruy, quão doloroso é saber-te cortado!...

 

PROVÉRBIOS  E  CITAÇÕES

 

*

 

Omili yange iwa ili m’ongubu

Omupika wange muwa k’oilongo

 

A minha bengala metida em espinheiros, dentro do cercado

Está longe de casa o meu melhor escravo

 

Kwanyama

 

Está escravo da casa o meu melhor longe, sou escravo da casa dentro do cercado, cerquei-me de casas. Longe de espinheiras eu sou a bengala cercada de escravos. Sou escravo do longe que cerquei de casas dentro de espinheiras. Estou dentro de casa, longe do cercado, cercado de longe em casa de escravo. Estou longe do longe que há no meu cercado.

 

*

 

Ndapewa oilonga idiu k’ombala

Okuhondya omufya wediva

Okukomba esosolo n’omaoko

Okuhumbata omeva m’osimbale

Okutoma ongobe n’ongwiya

Okuyuva ongobe n'onyala

Okuka omuti n’enyala

Okukyaneka oufila k’omhada yomeva

 

Os duros trabalhos que lhe foram dados para fazer na ombala:

vedar com uma linha um rombo no tanque

varrer os macutas sem usar vassoura

com a ajuda de um cesto transportar a água

abater um boi servido de agulha

esfolar esse boi apenas com as mãos

derrubar um pau só com as próprias unhas

secar a farinha espalhando-a na água.

 

Kwanyama

 

abater um boi com a ajuda de um cesto

derrubar um pau sem usar vassoura

secar a farinha apenas com as unhas

transportar a água espalhando-a na água

varrer as macutas servido de agulha

 

derrubar as águas sem usar as unhas

vedar com uma linha um rombo nas mãos

abater macutas com ajuda de um cesto

com a ajuda de um boi abater um tanque

transportar um boi esfolado com as unhas

derrubar as unhas apenas com as mãos

derrubar a água secar a farinha transportar as unhas

 

espalhar as agulhas abatendo os cestos varrer as vassouras servido de um tanque com a ajuda dos rombos.

 

vedar a farinha

derrubar as unhas

esfolar as agulhas

abater os tanques

transportar os rombos

 

varrer as ajudas

secar os apenas

derrubar as linhas

derrubar as linhas

derrubar as linhas

derrubar as linhas.

 

*

 

Não é questão de idade, quem gosta do ferrão morre pelo mel e vai, a procurar areias, alheio à sedução, vai procurar montanhas para inverter-se nelas, vai procurar a chuva e um companheiro com quem encontra abrigo. Elefantes então desfilariam conscientes da sua imensidade. E o dono da azagaia indagaria: será questão da idade? Ou de caminho? Em que terra aguardará o pássaro molhado com quem eu devo partilhar o abrigo? O pássaro molhado, que se molhou comigo, que rastos seguirá, de outras manadas, que abrigo ou que montanha habitará agora, aonde gritará para ser ouvido?

Na terra onde passaste, onde não brama o eco e nem a rama medra, aí se dava a caça, o elefante fácil, fatigado, também em busca de abrigo

para secar o coração molhado.