Ruy Duarte de Carvalho (n.1941), antropólogo e professor, leccionou nas Universidades de Luanda, Coimbra e São Paulo. Português de origem, mas angolano por vocação e opção ("O nosso país é aquele com o qual o nosso destino se mistura"), iniciou a sua obra poética em 1972 com Chão de Oferta. Além de poesia, publicou diversas outras obras, das quais se destacam Vou lá visitar pastores (1999), Os Papéis do Inglês (2000) e As Paisagens Propícias (2005).
Tanto a introdução ao autor como os textos que se seguem foram extraídos da sua obra Lavra - Poesia Reunida 1970/2000, Cotovia, 2005. Tive o privilégio de ter colaborado na adaptação da sua obra Vou lá visitar pastores para teatro, da autoria de Rui Guilherme Lopes, com excelentes críticas mas de pouca duração, devido ao pouco reconhecimento que Ruy Duarte de Carvalho obteve até ao momento junto do público português (depois do seu falecimento as coisas irão melhorar bastante). Ó Rui sem ípsilon, quão doloroso foi cortar o Ruy!... Ó Ruy, quão doloroso é saber-te cortado!...
PROVÉRBIOS E CITAÇÕES
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Omili yange iwa ili m’ongubu
Omupika wange muwa k’oilongo
A minha bengala metida em espinheiros, dentro do cercado
Está longe de casa o meu melhor escravo
Kwanyama
Está escravo da casa o meu melhor longe, sou escravo da casa dentro do cercado, cerquei-me de casas. Longe de espinheiras eu sou a bengala cercada de escravos. Sou escravo do longe que cerquei de casas dentro de espinheiras. Estou dentro de casa, longe do cercado, cercado de longe em casa de escravo. Estou longe do longe que há no meu cercado.
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Ndapewa oilonga idiu k’ombala
Okuhondya omufya wediva
Okukomba esosolo n’omaoko
Okuhumbata omeva m’osimbale
Okutoma ongobe n’ongwiya
Okuyuva ongobe n'onyala
Okuka omuti n’enyala
Okukyaneka oufila k’omhada yomeva
Os duros trabalhos que lhe foram dados para fazer na ombala:
vedar com uma linha um rombo no tanque
varrer os macutas sem usar vassoura
com a ajuda de um cesto transportar a água
abater um boi servido de agulha
esfolar esse boi apenas com as mãos
derrubar um pau só com as próprias unhas
secar a farinha espalhando-a na água.
Kwanyama
abater um boi com a ajuda de um cesto
derrubar um pau sem usar vassoura
secar a farinha apenas com as unhas
transportar a água espalhando-a na água
varrer as macutas servido de agulha
derrubar as águas sem usar as unhas
vedar com uma linha um rombo nas mãos
abater macutas com ajuda de um cesto
com a ajuda de um boi abater um tanque
transportar um boi esfolado com as unhas
derrubar as unhas apenas com as mãos
derrubar a água secar a farinha transportar as unhas
espalhar as agulhas abatendo os cestos varrer as vassouras servido de um tanque com a ajuda dos rombos.
vedar a farinha
derrubar as unhas
esfolar as agulhas
abater os tanques
transportar os rombos
varrer as ajudas
secar os apenas
derrubar as linhas
derrubar as linhas
derrubar as linhas
derrubar as linhas.
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Não é questão de idade, quem gosta do ferrão morre pelo mel e vai, a procurar areias, alheio à sedução, vai procurar montanhas para inverter-se nelas, vai procurar a chuva e um companheiro com quem encontra abrigo. Elefantes então desfilariam conscientes da sua imensidade. E o dono da azagaia indagaria: será questão da idade? Ou de caminho? Em que terra aguardará o pássaro molhado com quem eu devo partilhar o abrigo? O pássaro molhado, que se molhou comigo, que rastos seguirá, de outras manadas, que abrigo ou que montanha habitará agora, aonde gritará para ser ouvido?
Na terra onde passaste, onde não brama o eco e nem a rama medra, aí se dava a caça, o elefante fácil, fatigado, também em busca de abrigo
para secar o coração molhado.