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Tuesday, 18 July 2006

Aos dias de chuva, futuristas por natureza

 

No dia da nuvem nossa,

prometo-te gravidade

na queda impregnante

e, no impacto,

naquele pó já alheio,

lama. Prometo-te.

 

De modo delicado,

como num verso de

Cerante no momento

em que nos quebra,

juro-te ainda

obedecer a toda a lei

que reja as leis da física

tal como o faço agora,

talvez de modo quase,

ou quântico.

 

Temo apenas o tombo

teu antes do tempo e

da companhia;

de cada gota que te cai

no lago biográfico.

 

 

 

Wednesday, 5 April 2006

Uma Astrónoma em observatório


Este texto é dedicado ao subconsciente do Luiz Felipe Coelho, e é parte integrante, embora externa, do seu presente de aniversário.

 

_____________________

 

Riso etéreo

Que cintila

Na universal escuridão tranquila

Do mistério.

 

            Teixeira de Pascoaes

 

 

A lua estava de navalha,

e a sua lâmina turca

cortava

a noite, inconsciente

de que a noite rasgada,

por detrás se reunindo,

adensava o negrume

que empurrava pela ré

o gume com que a lua

a noite feria.

 

E qualquer estrela de vigília?

Fez não mais do que fabricava.

Expandiu-se em claridade

enquanto de cosmos se consumia.

 

 

 

Monday, 20 February 2006

Poemeto dedicado

Ah, a haver anjos, que os há,

devem ser de um desajeito!..

.

Imaginemos um, para descrevê-lo...


Deve ter mais que um defeito.

Será calvo, corcovado ou torto?

Distraído ou perdidamente achado?

O mais certo é ser despistado,

com uma mente tentando

absorver mais que o contido

no continente em que vagueia.


O aspecto poderá ser vagabundo.

E como criticar-lhe tal desleixo,

se ser-se anjo é ter cérebro

que, entre a camisa e o riso,

logo desdenha a fisionomia?


E, para ser de verdade um anjo,

basta um simples teste para sabê-lo.

Diga-lhe, “Você é um anjo lindo!”

A ser anjo vai de imediato negá-lo.

E quem sou eu para me dar ao luxo

de possuir tal angélica sabedoria?


Se ainda não sou seu conhecido,

permita-me que me apresente.

Por oposição, foi discernido

mais que um anjo surpreendente,

e se duvida do que lhe digo,

quem isto lhe diz é um diabrete.

 

 

Thursday, 17 November 2005

Nomeia-me

Chama-me pulha,

mostra a extensão da tua mágoa

e eu mostrar-te-ei a minha

e, nesse descontrolo,

nessa raiva primeva,

finalmente saberei quem és tu,

quem sou, unicamente naquele instante,

porque, sempre à nossa frente,

centenas de Revolucionários mais adiante,

jazem as vigarices de divindade,

videntes e pompeus,

e, mais adiante ainda,

a nossa faca enfia-se na bainha,

o sangue diluí-se e nada

brota, para ti, para mim,

mas tudo brota desse nada

que ambos de nós foi.

 

E pergunta-me o que sinto

se me quiseres chamar farsante.

Despe a tua máscara

para chamares palhaço

à máscara que te exibo

na mão esquerda, na mão esquerda.

Como? De máscara fora,

nada permanece?

Não há, debaixo, estrutura?

E agora?

Se eu tivesse algo vital atravessado

na garganta,

julgas que não seria dito?

 

O resto

do que não te digo não te o posso.

Acaso esqueces que não sei,

apesar de querer, numa conjura

convocar tudo,

tudo,

Les Rita Mitsouko, em pano de fundo, “I had every man, but I’m stupid anyway.”

num espaço de memória,

num tempo uníssono

e dizer, “É isto!”

para rir do nada,

quase pouco,

que tudo isso é?

 

Por certo,

ambas as faces da nossa equimose

vistas de outro planeta

são essa agitada treta,

essa doce merda

em que te interrogo

se te magoei,

quem se magoou,

se te magoaste por mim e,

quem se magoou de ti,

se fosse diferente,

se acabaria assim,

naquela consoante.

 

Vamos, vem

limpar o pó

que nos recorda, no mais breve espirro,

o passado.

Mal ou bem?

Passado.

 

 

* * *

 

Seria injusto não referir o nome do Luiz Felipe Coelho de novo, cujos textos com que nos presenteia se escapam entre estes versos. Ele sabe :-)