Chama-me pulha,
mostra a extensão da tua mágoa
e eu mostrar-te-ei a minha
e, nesse descontrolo,
nessa raiva primeva,
finalmente saberei quem és tu,
quem sou, unicamente naquele instante,
porque, sempre à nossa frente,
centenas de Revolucionários mais adiante,
jazem as vigarices de divindade,
videntes e pompeus,
e, mais adiante ainda,
a nossa faca enfia-se na bainha,
o sangue diluí-se e nada
brota, para ti, para mim,
mas tudo brota desse nada
que ambos de nós foi.
E pergunta-me o que sinto
se me quiseres chamar farsante.
Despe a tua máscara
para chamares palhaço
à máscara que te exibo
na mão esquerda, na mão esquerda.
Como? De máscara fora,
nada permanece?
Não há, debaixo, estrutura?
E agora?
Se eu tivesse algo vital atravessado
na garganta,
julgas que não seria dito?
O resto
do que não te digo não te o posso.
Acaso esqueces que não sei,
apesar de querer, numa conjura
convocar tudo,
tudo,
Les Rita Mitsouko, em pano de fundo, “I had every man, but I’m stupid anyway.”
num espaço de memória,
num tempo uníssono
e dizer, “É isto!”
para rir do nada,
quase pouco,
que tudo isso é?
Por certo,
ambas as faces da nossa equimose
vistas de outro planeta
são essa agitada treta,
essa doce merda
em que te interrogo
se te magoei,
quem se magoou,
se te magoaste por mim e,
quem se magoou de ti,
se fosse diferente,
se acabaria assim,
naquela consoante.
Vamos, vem
limpar o pó
que nos recorda, no mais breve espirro,
o passado.
Mal ou bem?
Passado.
* * *
Seria injusto não referir o nome do Luiz Felipe Coelho de novo, cujos textos com que nos presenteia se escapam entre estes versos. Ele sabe :-)