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Thursday, 7 May 2015

Langi

O Langi faleceu hoje de manhã. Deixo aqui então um texto que lhe escrevi em 2011:


Ah, este amor-cão!...

Entraste na minha vida com medo
e eu na tua por atracção.
Apenas um de nós sairá vivo
desta animalesca relação.


Ensinaste-me a fertilidade da merda,
e que o odor exige habituação.
Ensinei-te que da liberdade a perda
nem sempre será um senão.

Lembro-me das ondas, quando as viste
entre forte temor e admiração.
Deslumbraste-te de areia e sentiste
que trincar líquidos o é em vão.

Esta rima tão parva não é um acaso;
é a que melhor serve de ilustração
a um sentimento tão bem animado:
amor-cão, amor-cão, amor-cão!


E quando não rimamos, ouço-te
ladrar bem alto: estou vivo, uivo,
sou feroz, e matreiro,

mordo tudo: sapato, rabo e rato.
Mas no teu silêncio o olho diz-te:
Dá-me comida, por compaixão.




Saturday, 2 May 2015

A ordem natural

Na ordem natural, em desordem a vida.
O cão torna-se velho e morre em espelho;
a mãe, ela segue mas numa via paralela;
dos sobrinhos temos margem de sobra;
e no trilho deles todo o filho. Ou adopte-se.

Dos amantes, dormimos com todo o amante
e eles com todo o nosso, sem beijo ou osso
trocado (o osso) e acariciado (o beijo), 
mas toma lá um postal vírico no verso:
“Poderíamos ter sido nós; não foi”
assim, sem pontuação final ou diagnóstico.

E do juízo, julgamos que o siso nos cresce
a cada menos um dente. Ardendo a madeira
da memória, no fumo diferente a de cada,
em cada, a floresta lida ou, nela, uma sesta,
e cinzas na cadeia do pensamento próprio.






Wednesday, 16 March 2011

Ah, este amor-cão!...

Entraste na minha vida com medo
e eu na tua por atracção.
Apenas um de nós sairá vivo
desta animalesca relação.

Ensinaste-me a fertilidade da merda,
e que o odor exige habituação.
Ensinei-te que da liberdade a perda
nem sempre será um senão.
 
Lembro-me das ondas, quando as viste
entre forte temor e admiração.
Deslumbraste-te de areia e sentiste
que trincar líquidos o é em vão. 
 
Esta rima tão parva não é um acaso;
é a que melhor serve de ilustração
a um sentimento tão bem animado:
amor-cão, amor-cão, amor-cão!

E quando não rimamos, ouço-te
gritar bem alto: estou vivo, uivo,
sou feroz, e matreiro,
mordo tudo: sapato, rabo e rato.
Mas no teu silêncio o olho diz-te:
Dá-me comida, por compaixão.