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Monday, 21 March 2011

Acareação

Ela queria tudo e eu só tinha isto. Abri a mão, rugosa de tanta impressão digital. Vales para explorar, colinas por subir e ver o que está do outro lado (outro vale, outra colina). Caravanas de ácaros sem Alá mas com camelo (eu). Ela queria tudo e eu só tinha dez dedos, duas opções, uma em cada mão, e uma só vontade. Ela queria tudo, e por isso acenei com uma vontade (contrária) e fui-me, aplicar duas opções, dez dedos e uma vontade (forçada) noutra acção. Valham-me os ácaros. Com eles conto sempre, mas nunca os vou poder contar. Por isso isto te conto.

 

 

Sunday, 20 March 2011

Sem de musas filtrado

Eu nem te beijei, tu nem me beijaste,
e já braços em ti tinha antes de te ter tocado.

Ainda os meus pés não tinham aterrado
e já p'r'ás Índias voava contigo por um lado.

Nem ainda algo se havia passado,
e já isto e aquilo podia ser vivido ou imaginado.

Então é isso que é ser-se um ser vivo;
é estar aflito, e nessa aflição ser-se alado.

 

 


 

Thursday, 10 March 2011

Musa Insuficiente

Ele há dias que nem com muita Musa se aguenta.
Ele há um momento.
E silêncio.

É preciso esperar pouco tempo.
Batendo à janela, há algo gemente.
Outro pouco depois, reconheço-lhe a voz abafada.
É a imortal, enquanto vive, Esperança.

Arrasto os pés até à porta.
Dona Esperança, como lhe vai?
Não sabe tocar à campaínha?

Porque me venho, deveria ser a pergunta.
E de tanto aqui vir, se tocasse estarias surdo.
Qual Beethoven, mas sem sinfonia ou talento.

Ui! E é isso uma palavra d' Esperança? 
Bem-vinda ao apartamento número dez, Esperança.
E já que entrou, a si própria responda.

Menos mal; enquanto há humor há Eu.
Ora, venho mais vezes do que o anuncio.
Para ser exacta, sempre.

E eu que nunca a vi mais gorda.

Ando de dieta; tornei-me vegetariana.
Mas dizia eu que venho sempre.
É que, quando não vier, então será nunca.
E jamais conhecerás o nunca, caro ser vivo.

Concordo que ser vivo é-me caro.
Quanto a isso do nunca, confunde-me.

Vivo é sempre, e nunca o seu oposto.
Fica-te assim o conceito mais claro?

Não faço ideia, mas pôs-me em sorriso.
Você deve ter sido a causa.

 

 

Wednesday, 9 March 2011

A Metamorfose da Musa

Estava eu em pose de quem escuta.
As Musas tocavam liras no passado.
Hoje, quando tocam, é completa banda.

Italo Calvino dizia que o mundo era empedernido.
E poderá sê-lo quando não há Musa que nos toque.

Sob influência da música da Musa tudo se move.
Em partículas minerais se solta a pedra.
Desenferruja-se o osso.

Só havia algo de acontecer que eu desconhecia.
Talvez por desconhecer das Musas a andança.

É que, por entre as notas musicais, dá-se metamorfose.
A Musa, que nada era, converte-se em peixe.
E diz que se esconde de dia na espuma.
Ou na espuma de cada dia.
E que emergirá se houver anzol lançado.
Bem enfeitado de suculenta minhoca.

De santo ou de sermões, sou parco António.
Mas os pescadores deram-me lição de paciência.
E pescar, se não é ciência é arte.
E minhoca poderia ser metáfora literária.
E dupla metáfora assim seria suculenta.

Eis-me então a  pescar metaforicamente.
Com pulso, sentirei o peixe-Musa que pica.
Se pica.
Se não pica.
Sei apenas que não será sereia.

E fico à coca.
E fico à coca.

 

 

Sunday, 6 March 2011

Entrevista com Musa

Quem és?
Que importa? Viemos todos da mesma ancestral matéria.
Matéria sobrevivente até ao momento em que ouço a tua pergunta.


Porquê eu (agora)?
Que os poetas possuem poderes extra de resposta é um mito.
Comem-se muitos mitos à mesa do quotidiano.
Mas se resposta houvesse talvez fosse: assim aconteceu.


Evocar-me-ás até quando?
Byron disse que não se pode viver em contínuo estado poético.
Não há ser que por muito atlético aguente tanta ausência.
Ausência de estômago, fome e sono.
Nem a excitação.
Excitação de estômago, fome e sono.
E já se confirmou cientificamente: três anos no máximo.
Talvez por isso se ausente a Musa e mais tarde retorna.
Renovada, por vezes, noutras outrada.
Disso das Musas sei quase nada.


Faz-te feliz a minha presença?
Tal como Hemingway, prefiro escrever sob a tua influência.
Sob ela, parece-me ter acesso a uma área do cérebro mais remota.
Quiçá daquelas que outros acedem à força de droga.
Mas para aceder a essa área nada forcei.
É um caminho que vem ter comigo.
Sendo que comigo é conceito construído por conceito que de mim tenho.


E depois disto?
Fico tranquilo.
E diferente, por ter vivido aquilo o que isto é agora.
Sorrirei com ambos os lábios ao evocar esta memória.
E o resto é futurologia; depois de amanhã, história.





Olhos de Mar

Pela primeira vez pus nos olhos os olhos de mar
Foram oferta de quem por mim passou
e que talvez se delongue no ficar.

Abri-os bem, pensei que se tinham embaciado.
Se das dioptrias, se da profusão de cores,
abri a boca; quedei-me pasmado.

Quedei-me pasmado, e isso no primeiro dia.
Imagine-se então no quinto ou oitavo,
quanto pasmo me ainda quedaria.

À noite, ponho os olhos de mar de parte.
Parte-se-me o cérebro para o sonho,
e se for pesadelo é-o como arte.

Queria explicar-te o que com os olhos vejo.
Mas é tão difuso quanto a separação
entre a ocasião e um final ensejo.

 

 

A Musa da Fuga

Diziam os poetas que a Musa os abandonou.
Tenho dúvidas, e proponho outra tese.
É o poeta que por susto afasta a Musa.

O poeta é um fingidor, disse Pessoa.
E pouco se pode adicionar ao que diz um Poeta.
Mas a soberba possuiu-me por um instante.
Assim digo que o poeta é um apressado.
Que cria futuros ainda no pouco passado.
Que semeia ventos e colhe tão somente brisa.
Que quanto mais se incha mais se minimiza.

Perdão, não me socorri duma económica escrita.
Poderia ter dito apenas que o poeta é pobre.
Do tipo de pobre que pensa muito e dá pouco.
Pensando, o pobre, que pariu um admirável algo.

A Musa disse-lhe olá e ele respondeu amo-te.
A Musa disse-lhe chamo-me e ele pôs-lhe um nome.
A Musa ia passear e ele disse fica.
Não há Musa que se aguente.

Fuga.

 

 

O Mar da Musa

Disse-me uma Musa do passado:
«Apenas aqueles que amam o viver se agarram à vida.»
Mas cito-a de lembrança.
Talvez ela tenha dito:
«Apenas os que amam temem a morte.»
Não me recordo.
É que as Musas são profícuas na palavra.
E a minha mente míngua na memória.

Passados estes anos, pego na sua lógica.
É que estou em estudo para pensador crítico.
E, aplicada, assim se desenrola:
Apenas quando te quero penso em ti.
Enquanto te quero há algo que me assusta.
Não por mim, que me percebo perecedouro.
Mas por mim, que me fazes flumiflamante.
E coloco nos olhos os olhos de mar, tua oferta.
Sem ti vejo somente uma praia deserta.
Um músculo ou molusco se me aperta.
Um búzio que do mar não sabe a letra.




Saturday, 5 March 2011

A finalidade da Musa

Essas mulheres de vitalidade acelerada,
tão prenhes de vida que uma vida não chega,
tão ardentes por dentro que a mão se esfria,
de entre elas virá uma Musa.

Essas mulheres que se escorrem na estrada,
essas mulheres de “encore” e “nunca chega,”
essas mulheres de sede que não se sacia,
entre elas haverá uma confusa.

De entre elas virá uma Musa,
de entre elas virá uma Musa,
Musa adentro, Musa.