Sunday, 6 March 2011

Entrevista com Musa

Quem és?
Que importa? Viemos todos da mesma ancestral matéria.
Matéria sobrevivente até ao momento em que ouço a tua pergunta.


Porquê eu (agora)?
Que os poetas possuem poderes extra de resposta é um mito.
Comem-se muitos mitos à mesa do quotidiano.
Mas se resposta houvesse talvez fosse: assim aconteceu.


Evocar-me-ás até quando?
Byron disse que não se pode viver em contínuo estado poético.
Não há ser que por muito atlético aguente tanta ausência.
Ausência de estômago, fome e sono.
Nem a excitação.
Excitação de estômago, fome e sono.
E já se confirmou cientificamente: três anos no máximo.
Talvez por isso se ausente a Musa e mais tarde retorna.
Renovada, por vezes, noutras outrada.
Disso das Musas sei quase nada.


Faz-te feliz a minha presença?
Tal como Hemingway, prefiro escrever sob a tua influência.
Sob ela, parece-me ter acesso a uma área do cérebro mais remota.
Quiçá daquelas que outros acedem à força de droga.
Mas para aceder a essa área nada forcei.
É um caminho que vem ter comigo.
Sendo que comigo é conceito construído por conceito que de mim tenho.


E depois disto?
Fico tranquilo.
E diferente, por ter vivido aquilo o que isto é agora.
Sorrirei com ambos os lábios ao evocar esta memória.
E o resto é futurologia; depois de amanhã, história.