Wednesday, 9 March 2011

A Metamorfose da Musa

Estava eu em pose de quem escuta.
As Musas tocavam liras no passado.
Hoje, quando tocam, é completa banda.

Italo Calvino dizia que o mundo era empedernido.
E poderá sê-lo quando não há Musa que nos toque.

Sob influência da música da Musa tudo se move.
Em partículas minerais se solta a pedra.
Desenferruja-se o osso.

Só havia algo de acontecer que eu desconhecia.
Talvez por desconhecer das Musas a andança.

É que, por entre as notas musicais, dá-se metamorfose.
A Musa, que nada era, converte-se em peixe.
E diz que se esconde de dia na espuma.
Ou na espuma de cada dia.
E que emergirá se houver anzol lançado.
Bem enfeitado de suculenta minhoca.

De santo ou de sermões, sou parco António.
Mas os pescadores deram-me lição de paciência.
E pescar, se não é ciência é arte.
E minhoca poderia ser metáfora literária.
E dupla metáfora assim seria suculenta.

Eis-me então a  pescar metaforicamente.
Com pulso, sentirei o peixe-Musa que pica.
Se pica.
Se não pica.
Sei apenas que não será sereia.

E fico à coca.
E fico à coca.