Ele há dias que nem com muita Musa se aguenta.
Ele há um momento.
E silêncio.
É preciso esperar pouco tempo.
Batendo à janela, há algo gemente.
Outro pouco depois, reconheço-lhe a voz abafada.
É a imortal, enquanto vive, Esperança.
Arrasto os pés até à porta.
Dona Esperança, como lhe vai?
Não sabe tocar à campaínha?
Porque me venho, deveria ser a pergunta.
E de tanto aqui vir, se tocasse estarias surdo.
Qual Beethoven, mas sem sinfonia ou talento.
Ui! E é isso uma palavra d' Esperança?
Bem-vinda ao apartamento número dez, Esperança.
E já que entrou, a si própria responda.
Menos mal; enquanto há humor há Eu.
Ora, venho mais vezes do que o anuncio.
Para ser exacta, sempre.
E eu que nunca a vi mais gorda.
Ando de dieta; tornei-me vegetariana.
Mas dizia eu que venho sempre.
É que, quando não vier, então será nunca.
E jamais conhecerás o nunca, caro ser vivo.
Concordo que ser vivo é-me caro.
Quanto a isso do nunca, confunde-me.
Vivo é sempre, e nunca o seu oposto.
Fica-te assim o conceito mais claro?
Não faço ideia, mas pôs-me em sorriso.
Você deve ter sido a causa.