Monday, 1 May 2006

Provocação professional – Jaan Kaplinski

Subitamente apercebi-me que nós, o homem branco, somos algo como aqueles peixes ou salamandras cegos e esbranquiçados vivendo em caves profundas e escuras, que perderam a sua pigmentação. Nós também somos uma população que vive em condições extremas e que tem vindo a sacrificar a compleição e várias outras características.

 

 

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Vivemos todos em Auschwitz. O que nós, os humanos, estamos a fazer à Natureza, aos outros seres vivos, não é muito melhor do que Auschwitz. Exterminamos algumas espécies e populações, e exploramos as outras sem misericórdia. Os animais criados em cativeiro são para nós não mais seres vivos capazes de alegria e sofrimento, mas apenas reservatórios amovíveis de carne e outros recursos. Sujeitamos os animais a toda a espécie de torturas, comportamo-nos como se apenas nós, a variedade ocidental do Homo sapiens, tivesse plenos direitos humanos. O que devemos nós, os representantes desta raça privilegiada detentores de mentes críticas, fazer se não podermos aceitar este devastador estilo de vida? Poderemos parar o actual Holocausto da Natureza, a sexta grande extinção? Como poderíamos pará-lo? Podemos pará-lo de todo? Faz sentido fazer algo pela Natureza, por outros seres vivos? O que talvez possamos fazer é proteger algumas espécies, legislar de modo a impedir que alguns exterminem algumas espécies, algumas populações, aliviando o sofrimento de alguns animais explorados? Mas isso ajuda? A lenta extinção é melhor do que uma rápida? Isso poderia criar a ilusão de que o crescimento sustentável e o progresso são possíveis, de que podemos salvar tanto o nosso estilo de vida quanto a Natureza. Isto é impossível. Para salvar a Natureza, e finalmente salvarmo-nos, necessitamos de uma mudança radical. Talvez essa mudança possa efectuar-se como reacção a desastres e tragédias reais, possa vir através de sofrimento e desespero agudos… Na medicina é um facto conhecido que as doenças crónicas são mais difíceis de curar do que as agudas, tal como as inflamações. O nosso estilo de vida é um desastre crónico, uma avaria crónica da biosfera. Para curá-la talvez tenha que se tornar aguda, e apenas então ninguém poderá evitar tomar consciência dela. O medicamento para a cura é conhecido, mas até este momento pensamos que é demasiado amargo para o tomarmos. Concordaremos apenas em tomá-lo quando sentirmos a dor e não mais possamos viver com ela, esquecê-la, aliviá-la com placebos.

 

 

Textos retirados e traduzidos por António Dinis Lopes de: http://jaan.kaplinski.com/tri.html