Sunday, 21 May 2006

Dia imperfeito

 


Enganou-me o olho


ao misturar fotograma atrás de fotograma,


cada um único,


escondendo a moldura do [que] retrato,


fingindo movimento


de aproximação a um fruto


num momento em que estava


eu pouco mais do que sentado.


 


O palato? Enganou-me.


O olho disse, "doce"


e o palato reclamou, "amargo".


 


Engano, mais engano,


contribuiu o olfacto.


“É exótico!” convenceu-me.


“Pergunta ao olho,” argumentou.


“Vais ver o que diz o palato.” 


 


O auditivo nada filtrou,


contribuiu para o engano


dos sentidos. “Sentido


não engana sentido,”


teria dito se falasse.


Afinal, verbal não é sentido.


Talvez não sinta; sente-se.


Verbo é um objecto


sempre que arremessado.


 


Nesse dia imperfeito,


estava de folga o tacto.


Teria sido inequívoco


se dissesse, “Este objecto


não tem forma, é pura


informação.”


 


Em quem confiarei


a cada dia imperfeito


que se segue?


Na tua visão?


No teu sentimento?


Na tua ideia [abstracta]?


No grito de dor logo


que me atinge o teu verbo?


 


Perdoa-me a responsabilidade


que te imputo com sentido.


Nos meus não confio.


Em cada dia imperfeito


mais o que sinto.