Enganou-me o olho
ao misturar fotograma atrás de fotograma,
cada um único,
escondendo a moldura do [que] retrato,
fingindo movimento
de aproximação a um fruto
num momento em que estava
eu pouco mais do que sentado.
O palato? Enganou-me.
O olho disse, "doce"
e o palato reclamou, "amargo".
Engano, mais engano,
contribuiu o olfacto.
“É exótico!” convenceu-me.
“Pergunta ao olho,” argumentou.
“Vais ver o que diz o palato.”
O auditivo nada filtrou,
contribuiu para o engano
dos sentidos. “Sentido
não engana sentido,”
teria dito se falasse.
Afinal, verbal não é sentido.
Talvez não sinta; sente-se.
Verbo é um objecto
sempre que arremessado.
Nesse dia imperfeito,
estava de folga o tacto.
Teria sido inequívoco
se dissesse, “Este objecto
não tem forma, é pura
informação.”
Em quem confiarei
a cada dia imperfeito
que se segue?
Na tua visão?
No teu sentimento?
Na tua ideia [abstracta]?
No grito de dor logo
que me atinge o teu verbo?
Perdoa-me a responsabilidade
que te imputo com sentido.
Nos meus não confio.
Em cada dia imperfeito
mais o que sinto.