Fomos um, em tempos
– e não era uma vez –
e a inteligência de coisas maiores
do que essa com que me ouves
julgou por bem separar-nos em dois
– teríamos tempo para mais acções –
atribuindo-nos tarefas diferentes e ósseas
que confluem nos objectivos primários
do rio de inteligências
cujo pensamento apenas sinto e tu observas
na persistência das ervas (quão óbvio!), nas
flores atraindo artrópodes
por uso intenso e atractivo de cor ou cheiros
– o garante de novas gerações
de raça e víscera poliníferas –
(onde está o cérebro das flores
que devisou tais armadilhas, tais planos?),
na imitação do cheiro a morte de certas víboras,
assim enganando desde o ovo os predadores
de objectivo primário ser delas comensais,
no parasita que entendeu os processos
cerebrais dos caracóis e, ao infectá-los
de si, os guia a locais bem visíveis
onde serão presa fácil de seres alados,
vulgares pássaros que defecarão as larvas
do parasita, fértil terreno das gerações
seguintes de domadores de caracóis,
e em tanta e tantas observações
dessa natureza perspicaz
a que chamo Vida mas são vidas
plurais, sempre plurais,
que se querem destacar das restantes,
querem ser a Vida de espécies dominantes,
ser mais do que as demais,
e se forem virais e estúpidas
liquidarão o hospedeiro antes
de infectarem outros paraísos,
a que uns chamam Células,
outros Celas.