Friday, 19 May 2006

Um conto quase lenga da Avôa

Fomos um, em tempos


– e não era uma vez –


e a inteligência de coisas maiores


do que essa com que me ouves


julgou por bem separar-nos em dois


– teríamos tempo para mais acções –


atribuindo-nos tarefas diferentes e ósseas


que confluem nos objectivos primários


do rio de inteligências


cujo pensamento apenas sinto e tu observas


na persistência das ervas (quão óbvio!), nas


flores atraindo artrópodes 


por uso intenso e atractivo de cor ou cheiros


– o garante de novas gerações


de raça e víscera poliníferas –


(onde está o cérebro das flores


que devisou tais armadilhas, tais planos?),


na imitação do cheiro a morte de certas víboras,


assim enganando desde o ovo os predadores


de objectivo primário ser delas comensais,


no parasita que entendeu os processos


cerebrais dos caracóis e, ao infectá-los


de si, os guia a locais bem visíveis


onde serão presa fácil de seres alados,


vulgares pássaros que defecarão as larvas


do parasita, fértil terreno das gerações


seguintes de domadores de caracóis,


e em tanta e tantas observações


dessa natureza perspicaz


a que chamo Vida mas são vidas


plurais, sempre plurais,


que se querem destacar das restantes,


querem ser a Vida de espécies dominantes,


ser mais do que as demais,


e se forem virais e estúpidas


liquidarão o hospedeiro antes


de infectarem outros paraísos,


a que uns chamam Células,


outros Celas.