Saturday, 6 May 2006

Ilhéu


Nasci num arquipélago,


em pele, como os demais.


Chamaram-lhe Açores,


os antigos, e os modernos


não o contestam.


S. Miguel viu-me nascer;


nasce-se logo abençoado.


Baptismo dispensa-se,


tal é a fartura de água benta


no lago envolvente da lava fria


(a que se teima chamar oceano)


e a do interno (a que se teima


chamar lagoa, a das Sete Cidades,


mesmo na única urbe da ilha,


a fálica Ponta Delgada).


Como ilhéu que sou,


creio-me um rochedo em pleno mar.


No entanto, a alma é nómada,


logo sonho com outras ilhas,


outros arquipélagos:


Canárias, quando passa um pássaro,


na sesta à sombra arbórea, Madeira,


Cabo Verde, quando passa o sargento.


O mais longe que fui foi à horta,


que é uma ilhota de couves de tio meu.


Disse-me a minha mãe:


- Troca de ilha, filho!


- Para quê, mãe, se já sou incontinente?


 


 


 


 


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Com um obrigado à Dànskï, que me fez pensar no assunto.