Nasci num arquipélago,
em pele, como os demais.
Chamaram-lhe Açores,
os antigos, e os modernos
não o contestam.
S. Miguel viu-me nascer;
nasce-se logo abençoado.
Baptismo dispensa-se,
tal é a fartura de água benta
no lago envolvente da lava fria
(a que se teima chamar oceano)
e a do interno (a que se teima
chamar lagoa, a das Sete Cidades,
mesmo na única urbe da ilha,
a fálica Ponta Delgada).
Como ilhéu que sou,
creio-me um rochedo em pleno mar.
No entanto, a alma é nómada,
logo sonho com outras ilhas,
outros arquipélagos:
Canárias, quando passa um pássaro,
na sesta à sombra arbórea, Madeira,
Cabo Verde, quando passa o sargento.
O mais longe que fui foi à horta,
que é uma ilhota de couves de tio meu.
Disse-me a minha mãe:
- Troca de ilha, filho!
- Para quê, mãe, se já sou incontinente?