Friday, 19 May 2006

Um padrão do carinho

Dedicado à Paloma,

que escreveu:

“Nunca vi ninguém chamar carinho de padrão.

 

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O amor dum homem? – Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? – Quando eu sonho o amor dum deus!...

                                             Florbela Espanca

 

 

 

Carinho é um padrão feminino,

que se expressa em gradações diversas no macho

também, via o vaginário.

 

O vaginário é a réstia do lábio;

o contorno do orifício da perna amputada ao macho

quando se tornou macho.

 

Tornar-se macho é ser-se perneta

de um ponto de vista estritamente cromossomático,

e tal não é bom nem mau.

 

Nem bom nem mau é benigno

ou maligno, consoante o ponto de vista escolhido

para observar o que se vê.

 

O que se viu até este momento

foi um padrão, originado por se repetir o mesmo

até que alguém entenda.

 

E, se houver alguém, será entendido.

Pode-se parar a repetição.

A repetição cansa.

Forma padrões mas cansa.

O padrão é a mesmice.

A mesmice cansa.

Cansa quem entende o padrão.

Quem existe logo entende.

 

Do carinho:

– É feminino.

 

Do feminino:

– É criar a cria.

 

Da cria:

– É ser bem criada.

 

Da criação:

– É um fruto.

 

Do fruto:

– Pode ser seco. Mas se se lhe juntar adubo, água e amor (é energia)…

 

Da energia:

– Um sol tem tanto amor que se consome.

 

Do consumo:

– Quem compra fica na posse.

 

Da possessão:

– Se nem o que és é teu, o que esperas para que [um ponto de vista].

 

Carinho é um padrão feminino

que se consome tanto...

Traduzido para uma língua-macho, é Mãmante.

Ser macho é ter menos espaço para ser preenchido.

E maior superfície exterior para contacto com a realidade.

Tal não é bom nem mau.

 

Carinho é tão padrão,

tão fêmeo,

que um ser assim feminino

quer acarinhar o divino,

sentir a genitália de [um ponto de vista].