Tuesday, 5 July 2005

Traído pelo que o próprio diz

Distraí-me...
Apercebi-me que estava distraído,
questionei-me se procurava distracção.

Destruí-me...
E na distracção reconstruí-me,
sem ter a certeza da nova construção.

Distraí-me porque estava destroçado
e não me apercebi que assim fugia
a uma acção...

Se me tivesse apercebido,
chamar-se-ia a isso distraído?


Traí-me ao deixar-me
ser distraído, construindo,
cobrindo, suavizando a destruição,
sobre a qual deveria erguer-se a força
e não a forca da distracção.

Não a este sorriso ténue,
mais que ingénuo, de desagonia,
que certo é ter a matemática função
de restaurar o equilíbrio natural
que alivia...

Não quero ser natural então,
quero ser homem contra-natura
e nessa procura, nessa atitude,
fazer algo mais do que cantar
sem música...

Quero agir e não ser ágil,
porque este forte sentir
é fútil,
e vai-se distrair;
é fácil e esvai-se...

E nessa acção adequada
(tenho medo do erro),
não vou chorar:
Eis o meu berro!
(Eis o meu medo...)
Eis o meu berro novamente!