Deixei uma nódoa no livro.
Que estranho chamar-lhe nódoa,
pois sei que era pingo de gordura
caído de uma torrada sobrebarrada,
como se estivesse barrada de vida
e não devidamente barrada.
Esse pingo que caiu, lembro-me quando caía.
Antes tinha sido parte de manteiga.
Ainda antes sal e nata
de leite de vaca
que estava na teta
— sede de bezerro —
e dentro da toura
perdia-a de vista.
Porque é nódoa, esta energia arquivada
na página do livro que fecho?
Agora é energia contida.
Só espero que todo outro livro
contenha tanta energia oculta
quanto este livro de que me despeço
um pouco antes do desfecho;
apenas o fecho, nem sequer à bruta.
No futuro quase vejo
um cientista tentando uma descoberta:
no que ali faz aquela nódoa seca.
Com instrumentos de boa análise,
recolhe a amostra,
e produz um estudo.
Se o estudo disser que não é nódoa
borrando uma página que se lia,
estou quase certo que, no futuro,
não se come torrada
e que faleceu toda a vaca.
E do futuro espero
não ter que ruminar mais nisto.
Esta pequena nódoa é ténue
prova de que se passou algo.