Tuesday, 19 July 2005

Deixei uma nódoa no livro

Deixei uma nódoa no livro.

 

Que estranho chamar-lhe nódoa,

pois sei que era pingo de gordura

caído de uma torrada sobrebarrada,

como se estivesse barrada de vida

e não devidamente barrada.

 

Esse pingo que caiu, lembro-me quando caía.

Antes tinha sido parte de manteiga.

Ainda antes sal e nata

de leite de vaca

que estava na teta

— sede de bezerro —

e dentro da toura

perdia-a de vista.

 

Porque é nódoa, esta energia arquivada

na página do livro que fecho?

 

Agora é energia contida.

 

Só espero que todo outro livro

contenha tanta energia oculta

quanto este livro de que me despeço

um pouco antes do desfecho;

apenas o fecho, nem sequer à bruta.

 

No futuro quase vejo

um cientista tentando uma descoberta:

no que ali faz aquela nódoa seca.

 

Com instrumentos de boa análise,

recolhe a amostra,

e produz um estudo.

 

Se o estudo disser que não é nódoa

borrando uma página que se lia,

estou quase certo que, no futuro,

não se come torrada

e que faleceu toda a vaca.

 

E do futuro espero

não ter que ruminar mais nisto.

 

Esta pequena nódoa é ténue

prova de que se passou algo.