A maior diferença entre você e eu,
Cara amiga de cara amiga,
É sermos nada diferentes.
Como assim? Pergunta bem.
É que me parece que o nada é sobejamente mais difícil de preencher do que o muito.
O muito, podemos preencher de diferenças ou parecenças até ao demasiado.
Correcto? Ou estou errado?
E o nada, minha cara que nem a minha cara é, como se preenche?
Por que é que estou escrevendo em linhas como se de verso se tratasse?
Mais uma boa pergunta, a adicionar à sua inquiridora mente.
Vou-lhe inventar uma mentira. Permite-me?
Obrigado. Você é a minha cara mais compreensiva que conheço.
Já leu aquela obra de um italianozinho que dá pelo nome de Antonio
Tabucchi
Intitulada qualquer coisa sempre più tardi?
(Como se se pudesse encedar em vez de entardecer... Coitado.)
Diz esse coleccionador de outridão...
Sim, claro que esse autor de pouco próprio leu Pessoa.
As suas perguntas são de uma Inquisição torquemadiana!
Dizia eu, entremeado pelas suas interrupções, que
“Diz esse coleccionador de outridão...” e aí fui interrompido.
Pronto, pronto, não amue... Já lhe disse que as suas interrogações são terríficas.
“... a páginas tantas...” (e tantas tontas que não importa qual ou quais)
“... que nunca foi bom em poesia.” E continua, fazendo umas chalaças —
Porventura engraçadas, se ele tivesse sentido de humor além daquele esgar
Enjoado
De quem sabe (julga) demais (julga) — sobre rimas.
Claro que gosto do que ele escreveu! As suas perguntas, minha cara, as suas perguntas...
Porque haveria eu de perder tempo com o pobre diabo se o detestasse, mesmo que ligeiramente?
Sim, esta pergunta era minha. Tenho dúvidas, claro. Vê como somos semelhantes?
E daí, copiando o estilo dele de outrém nestes mesmos versos, em desafio,
Não escrevo, escrevendo, em prosa.
Escrevo coisas com rima, pois “cada palavra” rima com “cada palavra”, sempre; uma rima rica.
E coisas com metro, pois queria ver em que casas habitaria esse escritor se tivessem sido construídas sem medida, régua ou esquadro, mesmo que apenas um fio atado a uma pedra, ambos finitos, e assim medidos, no seu próprio metro, no seu próprio tempo, no seu único espaço único.
Eis a resposta à pergunta! Qual? Aquela!
Sim! Rio consigo!
E nesse riso desatinamos e baralhamos todas as nossas memórias,
Parecendo, até, que construímos coisas novas, apenas porque não nos lembramos
(Até a memória tem metro, essa escória de nós!)
Da autoria do que memorizámos, cujos autores não se lembram da autoria do que memorizaram, ad infinitum ou ad absurdum, ou
há-de ser outra coisa qualquer, ou então até a um finito, o original...
É deus, esse ponto inicial? Não sei!
Mas rio consigo! Sem ponto final!