Tuesday, 19 July 2005

A nódoa onde cai deixa marca

Este é o poema número quatro da I ª parte, “Canção do ver”, da obra Poemas Rupestres de Manoel de Barros, vencedora do prémio (tradução: prêmio) APCA 2004 para a categoria de poesia. Sobre este poema caiu a nódoa, apesar de antes de cair ser apenas pingo, etc, etc....

 

 

4

 

Por forma que a nossa tarefa principal

era a de aumentar

o que não acontecia.

(Nós era um rebanho de guris.)

A gente era bem-dotado para aquele serviço

de aumentar o que não acontecia.

A gente operava a domicílio e pra fora.

E aquele colega que tinha ganho um olhar

de pássaro

Era o campeão de aumentar os desacontecimentos.

Uma tarde ele falou pra nós que enxergara um

lagarto espichado na areia

a beber um copo de sol.

Apareceu um homem que era adepto da razão

e disse:

Lagarto não bebe sol no copo!

Isso é uma estultícia.

Ele falou de sério.

Ficamos instruídos.