Friday, 1 February 2008

O elefante

 

Com um piscar de olho ao texto «Oporto revisited» de Alexandra Monteiro.

 

 

E o elefante brame,

de indianos que o montam,

de lanças longas de Alexandre,

ferida adentro pelo flanco.

Também a voz fininha de Pessoa,

por Alvará do gigante dos Campos,

brame.

 

Ainda a história tinha outro nome

e já o elefante em infra-som falava.

Todavia o homem escutava pouco

mais além do bramido valoroso

de futuro marfim escorrendo

sangue.

 

E a voz inaudível elefantina

difundia-se quente pela savana,

“Onde estás, meu branco?

Meu sagrado? Meu puro?

Brame!”

 

Logo vem Aníbal pelos Alpes,

trá-lo à força de maltrapilhos.

O que a neve faz à humanidade.

Arre, burro!

Brame!

 

Que pode o decrépito mamute

diante matilha de tartarugas?

Breve vitória pela surpresa?

Púnica é tanto guerra quanto castigo.

De vencimento entende o legionário;

empunha o soldo, toca a trombeta,

“Salgue-se o chão de Cartago!”

 

Cobre-se de lama a pele

do elefante,

modo sujo de levar a vida adiante.

E se parecia o fim de uma era,

o elefante o havia desmentido,

infundindo na cabeça de Ganesh

ou culto hindu ou sabedoria.

Mas este pouco mexe, pouco manda.

Exportou-se a simbologia.

 

Vive assim o elefante, 

em Terra Nova, arquidistante.

E é branco? É negro.

E macho? Fêmea.

Cortaram-no aos pedaços que vendem

por votos no Partido Republicano.

Oh, brame!

 

Caiu o último conjunto de dentes

da boca do elefante.

Se não lhe falha a memória,

resta-lhe morrer à fome.

Procura aquele lugar antepassado

onde se pode deitar em descanso.

Encerra o olho terno

e pensa na relação fonética

entre imperial desejo e cemitério.

E brame?