Com um piscar de olho ao texto «Oporto revisited» de Alexandra Monteiro.
E o elefante brame,
de indianos que o montam,
de lanças longas de Alexandre,
ferida adentro pelo flanco.
Também a voz fininha de Pessoa,
por Alvará do gigante dos Campos,
brame.
Ainda a história tinha outro nome
e já o elefante em infra-som falava.
Todavia o homem escutava pouco
mais além do bramido valoroso
de futuro marfim escorrendo
sangue.
E a voz inaudível elefantina
difundia-se quente pela savana,
“Onde estás, meu branco?
Meu sagrado? Meu puro?
Brame!”
Logo vem Aníbal pelos Alpes,
trá-lo à força de maltrapilhos.
O que a neve faz à humanidade.
Arre, burro!
Brame!
Que pode o decrépito mamute
diante matilha de tartarugas?
Breve vitória pela surpresa?
Púnica é tanto guerra quanto castigo.
De vencimento entende o legionário;
empunha o soldo, toca a trombeta,
“Salgue-se o chão de Cartago!”
Cobre-se de lama a pele
do elefante,
modo sujo de levar a vida adiante.
E se parecia o fim de uma era,
o elefante o havia desmentido,
infundindo na cabeça de Ganesh
ou culto hindu ou sabedoria.
Mas este pouco mexe, pouco manda.
Exportou-se a simbologia.
Vive assim o elefante,
E é branco? É negro.
E macho? Fêmea.
Cortaram-no aos pedaços que vendem
por votos no Partido Republicano.
Oh, brame!
Caiu o último conjunto de dentes
da boca do elefante.
Se não lhe falha a memória,
resta-lhe morrer à fome.
Procura aquele lugar antepassado
onde se pode deitar em descanso.
Encerra o olho terno
e pensa na relação fonética
entre imperial desejo e cemitério.
E brame?