Wednesday, 9 November 2016

I woke up to the sound of Trumpets

and my way of killing myself 
is by dropping both arms
                                Ruy Belo


I woke up with a numb arm today, the right one. The other arm was used to raise a mug of coffee and try to wake up into this new nightmare. I need to be careful today not to overwork my left arm, the only arm that is left.  


Monday, 7 November 2016

Balada da Bicicleta Roubada

Tinha ido numa manhã, despreocupado,
de Tejo em deslumbre de ensolarado,
em cima de ti até ao trabalho,
e, no meio do caminho, não uma pedra
mas um pilão ficou chocado connosco,
e abraçados caímos contudo.

As nuvens continuaram a maquilhar o céu.

Na queda, a mão direita suportou todo o peso
do chão no osso, qual coluna dum Hércules fraco.
Dei-te a mão, levantámo-nos do asfalto,
e chiando queixosos, de pedal cabisbaixo,
metal e músculo chegámos ao Cais do Sodré.
Tranquei-te com corrente e chave,
deixei-te para trás e fui para a labuta.
A mão dorida não podendo cerrar-se na tua,
dia e noite, dia e noite, dia e noite,
e uma semana mais, deixei-te ao acaso,
naquele ponto de passagem desde a ralé
até ao ambientalmente preocupado. Deixei-te.

Quem eras tu, minha velha? 
Quase dada por um vizinho que te viu
como um excedente de rodas no armário,
apaixonei-me rapidamente pelo teu estilo,
de corpo cromado e esguio, de garfo amarelo
que tanta trepidação amorteceu.
Tinhas sido usada e bem usada,
e agora mudavas de companhia, o início
de mais um princípio, um sacudir a poeira,
um olear a corrente com que se puxa
os nossos corpos conjuntamente.  
O teu parco valor a olho moderno
era uma mais-valia à tua companhia.
Sim, quem te roubaria? 
Sem valor comercial, qual o motivo? 
Pensei-te eternamente minha.

Depois pensei melhor: O que possuo
não é da minha posse nem do meu posso.
Todos estes átomos colados, em macro
compondo células, costelas, e cerebelo,
não fui eu que os criei, que os escolhi,
e que depois às estrelas devolverei.
E assim, minha companheira de cu dorido,
tal como essa dor passageira, 
somente fui passageiro de ti.

E o roubo? Terá sido roubo? 
Deixei-te, perdi-te. Ninguém me obrigou
a deixar-te perto daquele porto
de maré dos que marcam o ponto.
Não houve um alguém que exigisse
que eu te oferecesse sem troca. 
Criei a oportunidade, e o oportuno levou-te.  
Só espero que lhe proporciones felicidade,
daquela de ir por caminhos de monte e mato
que a pé não apeteceriam. Nem de carro.
Espero que toda a tua peça sustente
o menor peso de ver o desconhecido
de mente sanguineamente bem bombeada.
A tua voz cansada de asfalto,
que o embale, que o embale.
Que o oportuno te aproveite,
te aprove e te aceite, contente, 
como tento aceitar a tua ausência.

E é ainda de mão da queda dorida
que te aceno.  





Wednesday, 2 November 2016

Trial and error


Side by side, a couple of young lovers placed the L and R eartips in each's appropriate ear canal.
The earphones wires became one necklace when their free ears touched.
The plan was to form a full circle of shared simultaneous experience, thought exchange, and equal enjoyment.
Their indexes pressed the single play button.
The music kicked in.
It didn't fully work.
But they tried.







Rádio-oral


Ela usava a boca
como quem liga o rádio
em pano de fundo, em surdina,
para fazer ruído,
para não se sentir só,
para não ter que pensar.

E eu entendi tudo isso com interferência:
Ela usava a boca para manter o cérebro no ar.




Friday, 21 October 2016

A Dancing Line


Dancing apsaras carved in a wall of the Bayon temple, Angkor Wat complex, Cambodia

I know, I sometimes forget to dance;
to shuffle my feet, my memories;
to workout and prevent that disease
of sitting too much and forgetting
to dance. 

"I have to thank you: you taught me
not to be embarrassed of dancing."
Thank you for having told me that
as my soul danced when it heard it.
A propos, "That's music to my ears."

"You didn't notice it? She was eating
you up with her eyes." No, I didn't.
I was dancing as one should dance,
with abandonment, just as we do
unwittingly when we walk enough.

Dancing is walking without leaving.



Saturday, 15 October 2016

The More Real Shadows

It is still beautiful to hear the heart beat
but often the shadow seems more real than the body.
The samurai looks insignificant
beside his armour of black dragon scales.
                              in Tomas Transtörmer's poem After a Death

Tuesday, 27 September 2016

Rua da Betesga

Ele há um fado que pede 
"Lisboa, não sejas francesa." 

Nunca entendi essa letra
que pela negativa reclama
retorno a uma portugalidade.

Se bem que não há regra
que diga que o que se cante
tem que fazer sentido,
e o autor, na onda da rima,
é arrastado por uma corrente,
e pode embater numa rocha,
quebrando o crânio, criando
vacuidade no derrame.

Contudo, naquela madrugada,
metidos num esconso com vista
sobre os telhados do Rossio
e os da Praça da Figueira,
avistámos dessa betesga a pinta,
e ela disse, "Parece Paris."

E foi, nesse ver finalmente a face
dessa Lisboa afrancesada,
e por vírus a espirrar obrigado, 
e sem me poder assoar no momento, 
que pinguei. Também do nariz.    

Monday, 26 September 2016

Suspenso


Leda e o cisne, de Botero
Se a vida é manutenção,
manutenção, manutenção,
manutenção,
eis a pura razão para deixar um momento
quieto no tempo, não o repetindo,
não buscando a repetição.





Sunday, 18 September 2016

Pela biblioteca horizontal

Toda a criança e todo o vizinho
proibido de ruído para além duma tosse
tímida, reclinados numa chaise longue,

de psicólogo na mão, por vezes psiquiatra,
feitos de frágil papel e tinta desvanecente,
de si próprios palrando em surdina,

berrando em surdina, em surdina rindo,
e assim sussurrando beatificamente,
bestas, belos, bobos, quase todos.

Estar sentado é posto de trabalho;
deitado deve ser o absorver do etéreo
enredo em cada livro contido.

Logo, nesse derramar de deleite divino,
a cadeira não tem postura para a literatura.

Lombo dorido, fora! Venha a chaise longue!  


Thursday, 1 September 2016

From close to closure - a toast

"I'm emotionally crazy right now," saía da rádio que poluía a esplanada ribeirinha onde fui tomar o vodka com laranja natural -- três euros, é um preço que já quase não existe em local semelhante àquele e em Portugal. E, esse vodka, tomava-o no afogar dessas emoções sempre tontas, sempre tantas, de saber que a Jennifer se entretinha com um amigo novo. Ora não há assexuada amizade entre homens e mulheres heterossexuais: É uma questão de tempo e oportunidade; estado de todos nós antes de a outros nós nos entregarmos. 

Ao saber desse estado Jenniferiano, não mais consegui continuar a nossa conversa telefónica, devido às emoções queimando no peito e, como água na cafeteira ao lume, subindo e misturando-se com a cafeína, que se mistura com o sangue, e que nos levanta e força à cafeína reagir, no meu caso a tomar um duche, fazer a barba, passar no cabeleireiro a que tinha antes desistido de ir neste dia mesmo, mas que agora tarde demais era: A aparadora de cabelo tinha-se ausentado; a depiladora removia pêlo nas traseiras (não sei se do traseiro), e as minhas orelhas tiveram que ficar frondosamente protegidas de agressões externas mais uma dia, pêlo sim pelo não.

E fui, a passo firme, a passo irado, até à beira-rio, até à esplanada, de onde as emoções se podem lançar para desaguar e diluir no Atlântico de águas frias, as quais as emoções quentes, se experientes, buscam. 

E, na esplanada, ambicionava eu saudar pela primeira vez uma nova amiga, mas sobre a Jennifer nada lhe dizendo, contudo dando-lhe atenção tão intensa como se ela fosse a Jennifer. E se isto que te digo te soa a infantil é porque é verdade. Tivesse eu tomado as rédeas do discurso e estaríamos ambos agora lendo uma poesia, porque ler não é um acto solitário, a menos que estejas lendo o que antes escreveste... E mesmo assim!... 

Depois deste pôr-do-sol irei pôr-me-belo, e o que vier receberei de braços abertos, livres que estão da forma do corpo ausente da Jennifer. 

É com estranho prazer que me expresso aqui em português, uma língua que por muito que ela a estude jamais a sentirá porque não a viveu -- tal como eu não vivi em inglês, ou, melhor, se o vivi foi-o noutramente.

Não te iludas -- eu quero que ela viva essa outra vida que agora se lhe apresenta. Não odeio no amor. Apenas queimo os cabos e as amarras que nos atavam um ao outro. E para isso um cigarro basta, seja a sua ignição por fósforo ou por isqueiro (por pedra pederneira ou por espelho demoraria mais do que este texto delonga). E desse cigarro se faz mecha, e dessa mecha se faz a queima, e daí naturalmente fumo.

Vem beber um vodka laranja, essa bebida cor-de-chama, em brinde e hino ao pôr-do-sol, tudo bem rimado com álcool.  

António's box is open, never as destructive as Pandora's.

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