Monday, 7 November 2016

Balada da Bicicleta Roubada

Tinha ido numa manhã, despreocupado,
de Tejo em deslumbre de ensolarado,
em cima de ti até ao trabalho,
e, no meio do caminho, não uma pedra
mas um pilão ficou chocado connosco,
e abraçados caímos contudo.

As nuvens continuaram a maquilhar o céu.

Na queda, a mão direita suportou todo o peso
do chão no osso, qual coluna dum Hércules fraco.
Dei-te a mão, levantámo-nos do asfalto,
e chiando queixosos, de pedal cabisbaixo,
metal e músculo chegámos ao Cais do Sodré.
Tranquei-te com corrente e chave,
deixei-te para trás e fui para a labuta.
A mão dorida não podendo cerrar-se na tua,
dia e noite, dia e noite, dia e noite,
e uma semana mais, deixei-te ao acaso,
naquele ponto de passagem desde a ralé
até ao ambientalmente preocupado. Deixei-te.

Quem eras tu, minha velha? 
Quase dada por um vizinho que te viu
como um excedente de rodas no armário,
apaixonei-me rapidamente pelo teu estilo,
de corpo cromado e esguio, de garfo amarelo
que tanta trepidação amorteceu.
Tinhas sido usada e bem usada,
e agora mudavas de companhia, o início
de mais um princípio, um sacudir a poeira,
um olear a corrente com que se puxa
os nossos corpos conjuntamente.  
O teu parco valor a olho moderno
era uma mais-valia à tua companhia.
Sim, quem te roubaria? 
Sem valor comercial, qual o motivo? 
Pensei-te eternamente minha.

Depois pensei melhor: O que possuo
não é da minha posse nem do meu posso.
Todos estes átomos colados, em macro
compondo células, costelas, e cerebelo,
não fui eu que os criei, que os escolhi,
e que depois às estrelas devolverei.
E assim, minha companheira de cu dorido,
tal como essa dor passageira, 
somente fui passageiro de ti.

E o roubo? Terá sido roubo? 
Deixei-te, perdi-te. Ninguém me obrigou
a deixar-te perto daquele porto
de maré dos que marcam o ponto.
Não houve um alguém que exigisse
que eu te oferecesse sem troca. 
Criei a oportunidade, e o oportuno levou-te.  
Só espero que lhe proporciones felicidade,
daquela de ir por caminhos de monte e mato
que a pé não apeteceriam. Nem de carro.
Espero que toda a tua peça sustente
o menor peso de ver o desconhecido
de mente sanguineamente bem bombeada.
A tua voz cansada de asfalto,
que o embale, que o embale.
Que o oportuno te aproveite,
te aprove e te aceite, contente, 
como tento aceitar a tua ausência.

E é ainda de mão da queda dorida
que te aceno.