Thursday, 22 December 2005

O que diferencia o homem do rato


Ergue-se o muro.


 


Um homem salta,


Outro escala,


Outro embate.


 


Um rato fura,


Outro fura,


Outro fura;


 


Cai a estrutura.


 


 


 

Wednesday, 21 December 2005

Nenhum grande espanto

Até seria grande o espanto


mulher mais jovem gostando


de homem velho


se não fosse um pequeno


pormenor que escapa


a qualquer evangelho,


não escapando:


 


Um sobrevivente maduro


resistiu a tanto vento,


arrelia, contratempo, demorando e se aprendendo nesse longo envelhecimento;


[Curto?


Curta é a memória analisada


pelo nosso pensamento


processado no futuro.]


 


um sobrevivente adulto


talvez até tenha, não sabendo,


transmitido ao gene resoluto


informação em forma de escudo


contra uma doença funesta,


ou de melhoria do corpo


pró-humano-desenvolvimento;


 


um sobrevivente sazonado


é mestre em obstáculo,


mesmo daquele contornado,


perfurado, oculto em perfume tanto,


e não é verdade que mestre ensina?


Fosse a jovem mulher ou seu filho,


do velho vai o novo se instruindo.


 


E assim, quem não teria orgulho


de ser patroa ou fruto


de Adão, novecentos e trinta anos bem vivo,


de Matusalém, a novecentos e sessenta e nove sobrevivido,


e, depois do dilúvio, já em terra seca,


de Abraão, cento e setenta e cinco,


de Moisés, cem e um vinténio?


 


 


 


Nem grande espanto o seria


ver um velho querendo nova


companhia para a sua sapiência,


ou como teste da sua força


pilar, “Será que aguento?”


Águas verterão todavia,


nem importa se para via deserta.


 


Julgaremos imoral a ideia


de um velho, mas não obsoleta,


em ver a sua obra transmitida


não por escrito, mas por criatura


de um efémero e terno momento,


suprema palavra, poesia codificada


num tempo que voa sem uso de asa?


 


 

Friday, 25 November 2005

Poesia Deliciosa – Segundo Prato

Enquanto a couve lombarda se despia

para a imersão escaldante, seu banho,

alguém observou: Por entre tanta folha,

alguma se aproveitaria.

 

 

* * *

 

 

Picada, para caldo de galinha,

a cebola está insuportavelmente mimada.

Todos tem pena quando apenas ela espirra.

 

 

* * *

 

 

Frango de caril jamais canta de galo.

 

 

* * *

 

 

Requintado,

o nosso amor está em polpa de tomate

requentado.

 

 

* * *

 

 

Após mais um alhicídio,

o lema deles mudou:

"Alho por alho!

Dente por cara!"

 

 

* * *

 

 

Houve um grande estrondo na cozinha.

Chorava-se um litro de leite derramado.

Na nossa opinião, aquilo não era nata.

 

 

* * *

 

 

Tal como a lula não é pota,

com a puta não é compota.

 

 

 

 

 

Friday, 18 November 2005

Poesia Deliciosa – Primeiro Prato


No dia em que me senti vegetal,

cozinhámos um nabo.

 

* * *

 

A salada estava um pouco baralhada

e apresentava um aspecto verde-doente.

Misturámos-lhe um pouco de limão ácido,

porventura amarelo.

A salada ficou um tanto amarga

mas de cor não melhorou.

Quando se sentiu mais desenjoada,

confessou – era o excesso de doce.

 

* * *

 

Quisemos cozinhar papel

numa sopa de letras:

Foi indigesto.

 

* * *

 

O melhor acompanhamento

parece ser sempre daquele

que sofreu tanto como o outro

que está frito.

 

* * *

 

Poucos são os cozinhados sem tempero

que se tornam temperamentais.

 

* * *

 

A nossa escura frigideira julga-se celestial

em cada ovo estrelado.

 

* * *

 

Sempre achámos um fenómeno estranho

o arroz e o espaguete não combinarem

até ao dia em que descobrimos 

as suas línguas diferentes.

 

 

 

Thursday, 17 November 2005

Nomeia-me

Chama-me pulha,

mostra a extensão da tua mágoa

e eu mostrar-te-ei a minha

e, nesse descontrolo,

nessa raiva primeva,

finalmente saberei quem és tu,

quem sou, unicamente naquele instante,

porque, sempre à nossa frente,

centenas de Revolucionários mais adiante,

jazem as vigarices de divindade,

videntes e pompeus,

e, mais adiante ainda,

a nossa faca enfia-se na bainha,

o sangue diluí-se e nada

brota, para ti, para mim,

mas tudo brota desse nada

que ambos de nós foi.

 

E pergunta-me o que sinto

se me quiseres chamar farsante.

Despe a tua máscara

para chamares palhaço

à máscara que te exibo

na mão esquerda, na mão esquerda.

Como? De máscara fora,

nada permanece?

Não há, debaixo, estrutura?

E agora?

Se eu tivesse algo vital atravessado

na garganta,

julgas que não seria dito?

 

O resto

do que não te digo não te o posso.

Acaso esqueces que não sei,

apesar de querer, numa conjura

convocar tudo,

tudo,

Les Rita Mitsouko, em pano de fundo, “I had every man, but I’m stupid anyway.”

num espaço de memória,

num tempo uníssono

e dizer, “É isto!”

para rir do nada,

quase pouco,

que tudo isso é?

 

Por certo,

ambas as faces da nossa equimose

vistas de outro planeta

são essa agitada treta,

essa doce merda

em que te interrogo

se te magoei,

quem se magoou,

se te magoaste por mim e,

quem se magoou de ti,

se fosse diferente,

se acabaria assim,

naquela consoante.

 

Vamos, vem

limpar o pó

que nos recorda, no mais breve espirro,

o passado.

Mal ou bem?

Passado.

 

 

* * *

 

Seria injusto não referir o nome do Luiz Felipe Coelho de novo, cujos textos com que nos presenteia se escapam entre estes versos. Ele sabe :-)

 

 

 

 

Brasileiro no multiply é divertido


Na generalidade, um cidadão do Brasil termina um reply com abraços ou beijos, consoante o alvo (mesmo que por vezes desejasse deixar beijos em vez de abraços e vice-versa e versa-vice, isso não importa aqui), e assina.

 

A diversão na minha mente começa ao imaginar uma conversa real com um deles, e que seguisse esses mesmos moldes.

 

António: “Olá. Como vai isso?”

Brasileiro anónimo chamado Fagundes: “Tudo legal, Antônio! Hoje estou sentindo vibrações positivas! Abraços. Fagundes.”

António: “E vai à praia?”

Fagundes, ainda anónimo e brasileiro: “Eta! Se vou, amigo Antônio! E vou correndo! A Mona Lisa vai comigo, cara! Abraços. Fagundes.”

António: “Mona Lisa? Você vai com um quadro?”

Fagundes, saindo do anonimato e preparando os seus golpes de capoeira: “Pô, Antônio! É quadro não! É minha amiga e amiga da Prima Donna! Abraços. Fagundes.”

António afasta-se para não abrir mais a boca e dizer um outro disparate.

António, entrando no anonimato: “Diga olá para ela da minha parte...”

Fagundes, do outro lado do Atlântico: “Ela disse oi pra você. Beijos. Mona Lisa. Abraços. Fagundes.”

 

 

* * *

 

É brincadeira mesmo, caro amigo, cara amiga. Abraços. Beijos. António. Maroto.

Wednesday, 16 November 2005

Um conselho a nunca ser seguido



Ao Luiz Felipe Coelho, que não segue conselhos 



Se vir um pássaro voando,
Não lhe inveje o penacho,
Nem com seu seixo contundido
Lhe alveje o andrógino corpo.


É certo e sabido que pássaro
Ferido sempre cai por um momento
Antes de levantar de voo novo,
Se for saído do ovo faz um tempo.


Sim, qualquer pássaro será morto,
Mas não será bastante distinto
Se for de pena em gaiola preso
Ou morrendo de azul divino?


E já pensou porque voa o bicho,
Escapando do que é térreo,
Lama primordial, fértil esterco,
E que deu origem ao seu ser aéreo?


E, mesmo assim, não está safo,
Cruzando os ares bem mais alto,
Um gavião qualquer é visto,
Visto que pássaro é um prato.


Pois bem, quer vê-lo atraído?
Encha uma taça de cristalino
Líquido, outra de louro milho,
E o desterrado aterrará em desatino.


Observe: o que era graça é nervoso,
O que era asa é pluma e oco osso;
Para que queria este pássaro?
Qual lhe seria o seu uso?


E qual o conselho que não se segue?
A nossa febre deles é neles gripe.

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Foto por Jennifer Allison







Curtos murmúrios; memórias longas

Ao Sergio (Cerante) Ornellas, e a outros que de triste encante

 

 

Naquele dia, o rapaz acordou diferente.

Disse umas palavras tristes e esperou.

Quem diz umas palavras tristes pouco espera.

Logo vem uma alma de mãe universa.

Vem curar a tristeza, vem ninar o moço.

 

Em cada dia seguinte, o rapaz acordou diferente.

E acordou outra vez uma, três mães, sete.

Sabes, aquela mãe de paciente voz cantante?

Nos dias anteriores a isto, a mãe era sirene.

Cantava o doloso, “Eis o meu regaço.”

 

Chegou no fim o dia em que algo sucedeu.

O rapaz não andava triste e morreu uma sereia.

Acordaram os dois fora do nó, só em laço.

 

 

 

Friday, 11 November 2005

Aqui poderia ter sido mais ali


Juro que vi uma névoa palavra


Escapar-se


Da tua boca naquele momento em que muda a abriste


E nada disseste como se a dizer nada houvesse


Sobre o que o teu olhar fixava.


 


O muro rijo dessa palavra


Lamentava-se


Não ser entendido e sequer ouvido no seu triste


Acto de flutuar como se não existisse


À medida que pelo ar se escapava.


 


O oxigénio da tua palavra


Extinguiu-se


Na combustão espontânea a que se assiste


                      [Aqui]


Ao combinar o nada com o nada.


 


E maior génio foi a tua palavra


Nascer-se


Alvoraçada tal como lhe pediste


                  [Ali]


Que saísse pela calada.


 


 


 


 

Thursday, 3 November 2005

Fomes


 


Naquele dia, de aborrecimento, o pobrezito decidiu brincar aos adultos.


Foi um caso sério.


Felizmente, na infância é possível misturar tudo de novo e recomeçar, como se de uma gargalhada se tratasse, como se tudo se tratasse com uma gargalhada.


Sim? Aqueles miúdos ali não riem?


Vamos adjectivar, esse vício tão humano.


O adjectivo é a tradução para palavras talvez mais próxima do que se sente e do que se julga.


Aí vai:


A fome é adulta. Ou faz crescer as crianças magricelas ou as mata sem piedade, podendo estas duas opções concretizarem-se em simultâneo. É o caso pior.


O adulto esfomeado de criança indica, empurra para um caminho zigzagueante um novo adulto que nunca viverá outro estádio.


A criança esfomeada de adulto não morrerá à fome.


Serão inteligentes aqueles que defendem que os que continuam brincando


com todos os assuntos pela vida fora são os mais inteligentes?


Seria triste morrer estúpido mas de barriga cheia.


Seria estúpido morrer triste.


E de barriga cheia.


 


 


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Imagem: http://www.foodfirst.org/pubs/backgrdrs/1998/s98v5n3.html