Ergue-se o muro.
Um homem salta,
Outro escala,
Outro embate.
Um rato fura,
Outro fura,
Outro fura;
Cai a estrutura.
Ergue-se o muro.
Um homem salta,
Outro escala,
Outro embate.
Um rato fura,
Outro fura,
Outro fura;
Cai a estrutura.
Até seria grande o espanto
mulher mais jovem gostando
de homem velho
se não fosse um pequeno
pormenor que escapa
a qualquer evangelho,
não escapando:
Um sobrevivente maduro
resistiu a tanto vento,
arrelia, contratempo, demorando e se aprendendo nesse longo envelhecimento;
[Curto?
Curta é a memória analisada
pelo nosso pensamento
processado no futuro.]
um sobrevivente adulto
talvez até tenha, não sabendo,
transmitido ao gene resoluto
informação em forma de escudo
contra uma doença funesta,
ou de melhoria do corpo
pró-humano-desenvolvimento;
um sobrevivente sazonado
é mestre em obstáculo,
mesmo daquele contornado,
perfurado, oculto em perfume tanto,
e não é verdade que mestre ensina?
Fosse a jovem mulher ou seu filho,
do velho vai o novo se instruindo.
E assim, quem não teria orgulho
de ser patroa ou fruto
de Adão, novecentos e trinta anos bem vivo,
de Matusalém, a novecentos e sessenta e nove sobrevivido,
e, depois do dilúvio, já em terra seca,
de Abraão, cento e setenta e cinco,
de Moisés, cem e um vinténio?
Nem grande espanto o seria
ver um velho querendo nova
companhia para a sua sapiência,
ou como teste da sua força
pilar, “Será que aguento?”
Águas verterão todavia,
nem importa se para via deserta.
Julgaremos imoral a ideia
de um velho, mas não obsoleta,
em ver a sua obra transmitida
não por escrito, mas por criatura
de um efémero e terno momento,
suprema palavra, poesia codificada
num tempo que voa sem uso de asa?
Enquanto a couve lombarda se despia
para a imersão escaldante, seu banho,
alguém observou: Por entre tanta folha,
alguma se aproveitaria.
* * *
Picada, para caldo de galinha,
a cebola está insuportavelmente mimada.
Todos tem pena quando apenas ela espirra.
* * *
Frango de caril jamais canta de galo.
* * *
Requintado,
o nosso amor está em polpa de tomate
requentado.
* * *
Após mais um alhicídio,
o lema deles mudou:
"Alho por alho!
Dente por cara!"
* * *
Houve um grande estrondo na cozinha.
Chorava-se um litro de leite derramado.
Na nossa opinião, aquilo não era nata.
* * *
Tal como a lula não é pota,
com a puta não é compota.
No dia em que me senti vegetal,
cozinhámos um nabo.
* * *
A salada estava um pouco baralhada
e apresentava um aspecto verde-doente.
Misturámos-lhe um pouco de limão ácido,
porventura amarelo.
A salada ficou um tanto amarga
mas de cor não melhorou.
Quando se sentiu mais desenjoada,
confessou – era o excesso de doce.
* * *
Quisemos cozinhar papel
numa sopa de letras:
Foi indigesto.
* * *
O melhor acompanhamento
parece ser sempre daquele
que sofreu tanto como o outro
que está frito.
* * *
Poucos são os cozinhados sem tempero
que se tornam temperamentais.
* * *
A nossa escura frigideira julga-se celestial
em cada ovo estrelado.
* * *
Sempre achámos um fenómeno estranho
o arroz e o espaguete não combinarem
até ao dia em que descobrimos
as suas línguas diferentes.
Chama-me pulha,
mostra a extensão da tua mágoa
e eu mostrar-te-ei a minha
e, nesse descontrolo,
nessa raiva primeva,
finalmente saberei quem és tu,
quem sou, unicamente naquele instante,
porque, sempre à nossa frente,
centenas de Revolucionários mais adiante,
jazem as vigarices de divindade,
videntes e pompeus,
e, mais adiante ainda,
a nossa faca enfia-se na bainha,
o sangue diluí-se e nada
brota, para ti, para mim,
mas tudo brota desse nada
que ambos de nós foi.
E pergunta-me o que sinto
se me quiseres chamar farsante.
Despe a tua máscara
para chamares palhaço
à máscara que te exibo
na mão esquerda, na mão esquerda.
Como? De máscara fora,
nada permanece?
Não há, debaixo, estrutura?
E agora?
Se eu tivesse algo vital atravessado
na garganta,
julgas que não seria dito?
O resto
do que não te digo não te o posso.
Acaso esqueces que não sei,
apesar de querer, numa conjura
convocar tudo,
tudo,
Les Rita Mitsouko, em pano de fundo, “I had every man, but I’m stupid anyway.”
num espaço de memória,
num tempo uníssono
e dizer, “É isto!”
para rir do nada,
quase pouco,
que tudo isso é?
Por certo,
ambas as faces da nossa equimose
vistas de outro planeta
são essa agitada treta,
essa doce merda
em que te interrogo
se te magoei,
quem se magoou,
se te magoaste por mim e,
quem se magoou de ti,
se fosse diferente,
se acabaria assim,
naquela consoante.
Vamos, vem
limpar o pó
que nos recorda, no mais breve espirro,
o passado.
Mal ou bem?
Passado.
Na generalidade, um cidadão do Brasil termina um reply com abraços ou beijos, consoante o alvo (mesmo que por vezes desejasse deixar beijos em vez de abraços e vice-versa e versa-vice, isso não importa aqui), e assina.
A diversão na minha mente começa ao imaginar uma conversa real com um deles, e que seguisse esses mesmos moldes.
António: “Olá. Como vai isso?”
Brasileiro anónimo chamado Fagundes: “Tudo legal, Antônio! Hoje estou sentindo vibrações positivas! Abraços. Fagundes.”
António: “E vai à praia?”
Fagundes, ainda anónimo e brasileiro: “Eta! Se vou, amigo Antônio! E vou correndo! A Mona Lisa vai comigo, cara! Abraços. Fagundes.”
António: “Mona Lisa? Você vai com um quadro?”
Fagundes, saindo do anonimato e preparando os seus golpes de capoeira: “Pô, Antônio! É quadro não! É minha amiga e amiga da Prima Donna! Abraços. Fagundes.”
António afasta-se para não abrir mais a boca e dizer um outro disparate.
António, entrando no anonimato: “Diga olá para ela da minha parte...”
Fagundes, do outro lado do Atlântico: “Ela disse oi pra você. Beijos. Mona Lisa. Abraços. Fagundes.”
Ao Sergio (Cerante) Ornellas, e a outros que de triste encante
Naquele dia, o rapaz acordou diferente.
Disse umas palavras tristes e esperou.
Quem diz umas palavras tristes pouco espera.
Logo vem uma alma de mãe universa.
Vem curar a tristeza, vem ninar o moço.
Em cada dia seguinte, o rapaz acordou diferente.
E acordou outra vez uma, três mães, sete.
Sabes, aquela mãe de paciente voz cantante?
Nos dias anteriores a isto, a mãe era sirene.
Cantava o doloso, “Eis o meu regaço.”
Chegou no fim o dia em que algo sucedeu.
O rapaz não andava triste e morreu uma sereia.
Acordaram os dois fora do nó, só em laço.
Juro que vi uma névoa palavra
Escapar-se
Da tua boca naquele momento em que muda a abriste
E nada disseste como se a dizer nada houvesse
Sobre o que o teu olhar fixava.
O muro rijo dessa palavra
Lamentava-se
Não ser entendido e sequer ouvido no seu triste
Acto de flutuar como se não existisse
À medida que pelo ar se escapava.
O oxigénio da tua palavra
Extinguiu-se
Na combustão espontânea a que se assiste
[Aqui]
Ao combinar o nada com o nada.
E maior génio foi a tua palavra
Nascer-se
Alvoraçada tal como lhe pediste
[Ali]
Que saísse pela calada.
Naquele dia, de aborrecimento, o pobrezito decidiu brincar aos adultos.
Foi um caso sério.
Felizmente, na infância é possível misturar tudo de novo e recomeçar, como se de uma gargalhada se tratasse, como se tudo se tratasse com uma gargalhada.
Sim? Aqueles miúdos ali não riem?
Vamos adjectivar, esse vício tão humano.
O adjectivo é a tradução para palavras talvez mais próxima do que se sente e do que se julga.
Aí vai:
A fome é adulta. Ou faz crescer as crianças magricelas ou as mata sem piedade, podendo estas duas opções concretizarem-se em simultâneo. É o caso pior.
O adulto esfomeado de criança indica, empurra para um caminho zigzagueante um novo adulto que nunca viverá outro estádio.
A criança esfomeada de adulto não morrerá à fome.
Serão inteligentes aqueles que defendem que os que continuam brincando
com todos os assuntos pela vida fora são os mais inteligentes?
Seria triste morrer estúpido mas de barriga cheia.
Seria estúpido morrer triste.
E de barriga cheia.
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Imagem: http://www.foodfirst.org/pubs/backgrdrs/1998/s98v5n3.html