Wednesday, 16 November 2005

Um conselho a nunca ser seguido



Ao Luiz Felipe Coelho, que não segue conselhos 



Se vir um pássaro voando,
Não lhe inveje o penacho,
Nem com seu seixo contundido
Lhe alveje o andrógino corpo.


É certo e sabido que pássaro
Ferido sempre cai por um momento
Antes de levantar de voo novo,
Se for saído do ovo faz um tempo.


Sim, qualquer pássaro será morto,
Mas não será bastante distinto
Se for de pena em gaiola preso
Ou morrendo de azul divino?


E já pensou porque voa o bicho,
Escapando do que é térreo,
Lama primordial, fértil esterco,
E que deu origem ao seu ser aéreo?


E, mesmo assim, não está safo,
Cruzando os ares bem mais alto,
Um gavião qualquer é visto,
Visto que pássaro é um prato.


Pois bem, quer vê-lo atraído?
Encha uma taça de cristalino
Líquido, outra de louro milho,
E o desterrado aterrará em desatino.


Observe: o que era graça é nervoso,
O que era asa é pluma e oco osso;
Para que queria este pássaro?
Qual lhe seria o seu uso?


E qual o conselho que não se segue?
A nossa febre deles é neles gripe.

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Foto por Jennifer Allison