Desta tristeza de ser agnóstico, nesta falta de rumo imposta pela ausência duma certeza mesmo que fosse inominável, indefinida, inexplicável, surge por vezes o lamento:
— Deus! Porque me abandonaste? Quero-te tanto, mais do que os que te...
— Importunas-Me.
— Meu Deus!
— Que pleonasmo esse o teu...
— Pai, é pasmo o meu!
— ... circunlóquio, superfluidade.
— Ah... vieste ensinar-me figuras de estilo?
— Não gozes.
— A pergunta é um gozo?
— Se a resposta não houver lugar.
— Sendo assim e doravante, tentarei sempre amplificar as minhas inquirições, reservando-lhes espaço para as respostas! Obrigado por este primeiro ensinamento!
— Não necessito dos teus favores, logo não te obrigues a nada no que Me toca.
— Não te toco...
— Nem Me vês.
— Oiço-te?
— Ouves.
— E falas?
— Falo.
— Então sempre és macho...
— A tua estupidez é tão lastimável quanto o teu gracejo.
— Como assim?
— Porque não vês que o é óbvio, que Eu só poderia ser macho, e porque te falta a divina graça.
— Explicas-me?
— Sim. É Minha a função de pai, pedagogo, disciplinador e protector, logo de demonstrar-te o que não sabes.
— E quem te incumbe dela?
— Escuta apenas. E não vejas.
— Perdão...
— O homem nasce para um desconhecido, e todo esse vazio, tão cheio, necessita de ser emprenhado de sentido, para que cessem perguntas tantas, para que possa movimentar-se, actuando.
— Estou escutando. Cerro os olhos...
— E assim agarrar-se-á rapidamente, porque urge, porque morre, ao que vê. Ver não é mau, mas simplesmente falho. E da origem da vida vê-lhe o sexo e a semente, e a macha ganha visibilidade quando se enrija e se esporra, e sente-la fervente. E a semente fêmea abscôndita contudo é de glória análoga...
— ... Que estilo verbal, o divino...
— ... Dos sentimentos, sente o homem a força no macho, a protecção de todos os eventos que não controla, que desconhece; o movimento universal que se desenrola. Se se quiser um protector de tanto desconhecido, quer-se a figura mesma, quer-se o pai. E se se quiser um director, a autoridade última de onde tudo o que não se controla emana...
— ... Quer-se a irmã?...
— ... quer-se o pai, o que manda. E quer-se um pai bruto de certezas sobretudo no início e no fim da vida, ou noutro período humano de fragilidade, tal como nos de assoberbada exaltação.
— Mas isso seria válido também numa sociedade matriarcal?
— Enquanto o macho for o dos músculos, sim.
— E quanto à mãe, à virgem Maria?
— Se lhe fosse reconhecido algum poder então haveria papisas.
— Mas ela tem algum poder?
— Se não o tivesse nem sequer se a adorava.
— Bom, poder de escolha pelo menos não teve...
— Acautela-te pois leio-te a mente impura.
— Essa é como a minha carne, que fazer?... Mas diz-me, foste tu que a violaste?
— Para que necessitaria Eu de mulher para fazer da concepção um milagre? Foi poderoso que por ali passou e lhe disse que o calasse.
— Um nobre?
— Um monarca. Afinal, «Venha a mim o Vosso reino».
— Que frase tão tendente ao equívoco...
— Assim é a voz divina.
— Mais alguém agora a escuta?
— Não. E sim. Simultaneamente.
— Um paradoxo?
— Retornas às figuras de estilo e de retórica.
— Sou, pois, um ser circular?
— Como o amor, sim.
— O amor é um ser?
— Era uma metáfora, a Minha.
— O amor é uma metáfora?
— Não. Tu és uma metáfora para o amor.
— O amor é mais verdadeiro do que eu?
— Em absoluto. E sem ele não o eras.
— Não entendo... o que é o amor então?
— O que te fez, que te move, que te mantém.
— E que me mata?
— Também.
— Pai?
— Diz.
— Não tenho tempo para continuar este diálogo...
— Comigo não se dialoga. Monologa-se.
— Pois que seja, mas a minha ênfase é no tempo que me é curto...
— Entendo as tuas pressas. Tiveste tanto tempo quanto memória dele tens. Vai.
— Mas não sem uma derradeira questão...
— Diz.
— Alguém acreditará na minha palavra quando transcrever o nosso diálogo?
— Monólogo.
— Pois...
— Diz-lhes apenas isto: que se não acreditam na palavra de Deus que por ti repasso então é porque de Mim duvidam.