Sunday, 11 February 2007

Porque perco tanto tempo com um assunto enterrado?

Desta tristeza de ser agnóstico, nesta falta de rumo imposta pela ausência duma certeza mesmo que fosse inominável, indefinida, inexplicável, surge por vezes o lamento:

— Deus! Porque me abandonaste? Quero-te tanto, mais do que os que te...

Importunas-Me.

— Meu Deus!

Que pleonasmo esse o teu...

— Pai, é pasmo o meu!

... circunlóquio, superfluidade.

— Ah... vieste ensinar-me figuras de estilo?

Não gozes.

— A pergunta é um gozo?

Se a resposta não houver lugar.

— Sendo assim e doravante, tentarei sempre amplificar as minhas inquirições, reservando-lhes espaço para as respostas! Obrigado por este primeiro ensinamento!

Não necessito dos teus favores, logo não te obrigues a nada no que Me toca.

— Não te toco...

Nem Me vês.

— Oiço-te?

Ouves.

— E falas?

Falo.

— Então sempre és macho...

A tua estupidez é tão lastimável quanto o teu gracejo.

— Como assim?

Porque não vês que o é óbvio, que Eu só poderia ser macho, e porque te falta a divina graça.

— Explicas-me?

Sim. É Minha a função de pai, pedagogo, disciplinador e protector, logo de demonstrar-te o que não sabes.

— E quem te incumbe dela?

Escuta apenas. E não vejas.

— Perdão...

O homem nasce para um desconhecido, e todo esse vazio, tão cheio, necessita de ser emprenhado de sentido, para que cessem perguntas tantas, para que possa movimentar-se, actuando.

— Estou escutando. Cerro os olhos...

E assim agarrar-se-á rapidamente, porque urge, porque morre, ao que vê. Ver não é mau, mas simplesmente falho. E da origem da vida vê-lhe o sexo e a semente, e a macha ganha visibilidade quando se enrija e se esporra, e sente-la fervente. E a semente fêmea abscôndita contudo é de glória análoga...

— ... Que estilo verbal, o divino...

... Dos sentimentos, sente o homem a força no macho, a protecção de todos os eventos que não controla, que desconhece; o movimento universal que se desenrola. Se se quiser um protector de tanto desconhecido, quer-se a figura mesma, quer-se o pai. E se se quiser um director, a autoridade última de onde tudo o que não se controla emana...

— ... Quer-se a irmã?...

... quer-se o pai, o que manda. E quer-se um pai bruto de certezas sobretudo no início e no fim da vida, ou noutro período humano de fragilidade, tal como nos de assoberbada exaltação.

— Mas isso seria válido também numa sociedade matriarcal?

Enquanto o macho for o dos músculos, sim.

— E quanto à mãe, à virgem Maria?

Se lhe fosse reconhecido algum poder então haveria papisas.

— Mas ela tem algum poder?

Se não o tivesse nem sequer se a adorava.

— Bom, poder de escolha pelo menos não teve...

Acautela-te pois leio-te a mente impura.

— Essa é como a minha carne, que fazer?... Mas diz-me, foste tu que a violaste?

Para que necessitaria Eu de mulher para fazer da concepção um milagre? Foi poderoso que por ali passou e lhe disse que o calasse.

— Um nobre?

Um monarca. Afinal, «Venha a mim o Vosso reino».

— Que frase tão tendente ao equívoco...

Assim é a voz divina.

— Mais alguém agora a escuta?

Não. E sim. Simultaneamente.

— Um paradoxo?

Retornas às figuras de estilo e de retórica.

— Sou, pois, um ser circular?

Como o amor, sim.

— O amor é um ser?

Era uma metáfora, a Minha.

— O amor é uma metáfora?

Não. Tu és uma metáfora para o amor.

— O amor é mais verdadeiro do que eu?

Em absoluto. E sem ele não o eras.

— Não entendo... o que é o amor então?

O que te fez, que te move, que te mantém.

— E que me mata?

Também.

— Pai?

Diz.

— Não tenho tempo para continuar este diálogo...

Comigo não se dialoga. Monologa-se.

— Pois que seja, mas a minha ênfase é no tempo que me é curto...

Entendo as tuas pressas. Tiveste tanto tempo quanto memória dele tens. Vai.

— Mas não sem uma derradeira questão...

Diz.

— Alguém acreditará na minha palavra quando transcrever o nosso diálogo?

Monólogo.

— Pois...

Diz-lhes apenas isto: que se não acreditam na palavra de Deus que por ti repasso então é porque de Mim duvidam.