Thursday, 18 January 2018

Dormant

A creature of sleep, embracer of pillows,
tends to float away in the everyday foam,
to yawn through petty problems, and 
to close its eyelids in the sofa of peace.

Hibernation is its default stance
until Spring, blooming, returns.

Then it notices its Winter-long hunger,
its unwashed fur.

Then, oxygen ostracises the said yawn, 
cascades of blood flood the brain,
ears become sensitive to speech,
and the said unwashed fur begins to reek.

It's then time to repair its cave,
to absorb what's new, what changed,
and to gather sleep-inducing food.




Thursday, 4 January 2018

Á-À! Agora é que são elas!

grafismo da revista L'Architecture d'Aujourd'hui

Trago à tua atenção um caso agudo e também grave.

 

Melhor dito, um caso de á (acento agudo) e de à (acento grave).

 

ás é o nome da carta mais valiosa de um baralho na maior parte dos jogos, ou é mais do que uma primeira letra do alfabeto: á, bê, cê, dê; ás, bês, cês, dês… Vês?

 

á não existe na língua portuguesa de forma isolada, excepto no caso de se estar a escrever por extenso a primeira letra do alfabeto.

 

à ou às são preposições para horas, direcção, sentido ou acção, usadas de forma isolada à excepção de quando se funde com pronomes como àquelas, àqueloutros.

 

A origem grave deste à parece ter sido a forma económica de juntar vogais idênticas. Por exemplo, sempre que tínhamos dois ás seguidos, em lugar de dizer ou escrever a a, dizíamos ou escrevíamos à:

 

Vou virar a a esquerda – à esquerda.

 

O sino tocará a as doze horas – às doze horas.

 

Tens que dar atenção a aquelas senhoritas – àquelas senhoritas.

 

Nada disso seria necessário se a nossa língua não pedisse tanto o artigo definido. Olha ela aqui a pedi-lo de novo!

Saturday, 22 April 2017

At a Glance

I
The opposite of Hatred was never Love.
Empathy.
And Indifference's the neutral stance.

II
There's no moral high ground here from where to lecture;
I too shouted hatefully,
in indifference mumbled,
and empathy silenced me. 

III
Megaphone.
Conversation.
Listening.

IV
And every stage in between.




Tuesday, 10 January 2017

As they go low we go high

Nestes tempos da Era pós-Trump, de ideias mesquinhas, parece-me seja de abraçar os pensamentos mais altos. Não por escapismo, mas talvez por alto-escapismo:


Em exibição no Cinema Ideal.
http://www.cinemaideal.pt/





Wednesday, 9 November 2016

I woke up to the sound of Trumpets

and my way of killing myself 
is by dropping both arms
                                Ruy Belo


I woke up with a numb arm today, the right one. The other arm was used to raise a mug of coffee and try to wake up into this new nightmare. I need to be careful today not to overwork my left arm, the only arm that is left.  


Monday, 7 November 2016

Balada da Bicicleta Roubada

Tinha ido numa manhã, despreocupado,
de Tejo em deslumbre de ensolarado,
em cima de ti até ao trabalho,
e, no meio do caminho, não uma pedra
mas um pilão ficou chocado connosco,
e abraçados caímos contudo.

As nuvens continuaram a maquilhar o céu.

Na queda, a mão direita suportou todo o peso
do chão no osso, qual coluna dum Hércules fraco.
Dei-te a mão, levantámo-nos do asfalto,
e chiando queixosos, de pedal cabisbaixo,
metal e músculo chegámos ao Cais do Sodré.
Tranquei-te com corrente e chave,
deixei-te para trás e fui para a labuta.
A mão dorida não podendo cerrar-se na tua,
dia e noite, dia e noite, dia e noite,
e uma semana mais, deixei-te ao acaso,
naquele ponto de passagem desde a ralé
até ao ambientalmente preocupado. Deixei-te.

Quem eras tu, minha velha? 
Quase dada por um vizinho que te viu
como um excedente de rodas no armário,
apaixonei-me rapidamente pelo teu estilo,
de corpo cromado e esguio, de garfo amarelo
que tanta trepidação amorteceu.
Tinhas sido usada e bem usada,
e agora mudavas de companhia, o início
de mais um princípio, um sacudir a poeira,
um olear a corrente com que se puxa
os nossos corpos conjuntamente.  
O teu parco valor a olho moderno
era uma mais-valia à tua companhia.
Sim, quem te roubaria? 
Sem valor comercial, qual o motivo? 
Pensei-te eternamente minha.

Depois pensei melhor: O que possuo
não é da minha posse nem do meu posso.
Todos estes átomos colados, em macro
compondo células, costelas, e cerebelo,
não fui eu que os criei, que os escolhi,
e que depois às estrelas devolverei.
E assim, minha companheira de cu dorido,
tal como essa dor passageira, 
somente fui passageiro de ti.

E o roubo? Terá sido roubo? 
Deixei-te, perdi-te. Ninguém me obrigou
a deixar-te perto daquele porto
de maré dos que marcam o ponto.
Não houve um alguém que exigisse
que eu te oferecesse sem troca. 
Criei a oportunidade, e o oportuno levou-te.  
Só espero que lhe proporciones felicidade,
daquela de ir por caminhos de monte e mato
que a pé não apeteceriam. Nem de carro.
Espero que toda a tua peça sustente
o menor peso de ver o desconhecido
de mente sanguineamente bem bombeada.
A tua voz cansada de asfalto,
que o embale, que o embale.
Que o oportuno te aproveite,
te aprove e te aceite, contente, 
como tento aceitar a tua ausência.

E é ainda de mão da queda dorida
que te aceno.  





Wednesday, 2 November 2016

Trial and error


Side by side, a couple of young lovers placed the L and R eartips in each's appropriate ear canal.
The earphones wires became one necklace when their free ears touched.
The plan was to form a full circle of shared simultaneous experience, thought exchange, and equal enjoyment.
Their indexes pressed the single play button.
The music kicked in.
It didn't fully work.
But they tried.







Rádio-oral


Ela usava a boca
como quem liga o rádio
em pano de fundo, em surdina,
para fazer ruído,
para não se sentir só,
para não ter que pensar.

E eu entendi tudo isso com interferência:
Ela usava a boca para manter o cérebro no ar.




Friday, 21 October 2016

A Dancing Line


Dancing apsaras carved in a wall of the Bayon temple, Angkor Wat complex, Cambodia

I know, I sometimes forget to dance;
to shuffle my feet, my memories;
to workout and prevent that disease
of sitting too much and forgetting
to dance. 

"I have to thank you: you taught me
not to be embarrassed of dancing."
Thank you for having told me that
as my soul danced when it heard it.
A propos, "That's music to my ears."

"You didn't notice it? She was eating
you up with her eyes." No, I didn't.
I was dancing as one should dance,
with abandonment, just as we do
unwittingly when we walk enough.

Dancing is walking without leaving.



Saturday, 15 October 2016

The More Real Shadows

It is still beautiful to hear the heart beat
but often the shadow seems more real than the body.
The samurai looks insignificant
beside his armour of black dragon scales.
                              in Tomas Transtörmer's poem After a Death