Éva Köves: Sombras de Budapeste (telas, fotos, óleos)
I
A luz de néon lunar cai,
um clarão de céu na neve.
Girando, tiquetaqueando.
Despertar, sobrancelha da hora.
II
Atravessando a ponte para Buda.
Nem rio nem ainda sonho,
barras de ferro atravessam a água.
Apresso-me, pois sou-me a casa.
III
Ao longo do negativo da estrada,
vindo dali, sempre de lá.
Entrando de costas, apesar do tolher
dos sinos da memória no espaço.
IV
Se ele viesse para casa internamente,
do escuro para o escuridão,
seria claro: somos um.
Tornar-me-ia inquestionavelmente.
V
Uma luz do acaso inscreve-lhe no braço
uma tira de preto. Queda-se,
e iria embora, mas também a tira o iria.
Fica: tatuado em duas mentes.
VI
Um obscuro momento, procuro uma saída.
Tento algo, para que possa sair.
Se houvesse um fio. Alguém que o oferecesse.
Se eu tivesse um único fósforo. Se houvesse Ariadne.
VII
Devo apenas deixar Tudo,
à medida que te encorpas para longe,
parte estranha de mim. O que faço,
tudo, é viver como se me observasses.
VIII
Incontáveis detalhes são descartados.
Apenas o anoitecer ou uma face permanece.
Uma ponte interminável prolonga-se cá dentro,
nenhum eco ladra, silenciosa ela arqueia-se.
IX
E leva-nos até lá, o teu sonho
varre-te ao longo de uma rua sem nome.
De branco para negro regresso.
Apresso-me, pois sou-te a casa.
X
Olhando para as lentas águas:
Quão fundo o fundo do recente.
O silêncio lunar espelhando nada.
Há quanto tempo tem isto fluído.
Adaptação da versão inglesa de Peter Sherwood por António Dinis Lopes
Link com informação relevante e revelante sobre a autora: http://www.arcpublications.co.uk/biogs/toth.htm