Está nesse canto, vejo-a. Fumando o cigarro
como a vida se esfuma.
Sentada, solene,
perna Cruzada mais do que contra os mouros,
no seu ser mais ícone do que uma religião:
uma certeza!
Dirijo-me a si, mulher perfeita, logo sem membros,
ou tetas ou Tétis, de nome mais antigo do que uma grega
filosofia. Na língua que falo agora sem agá: philosophia.
Porquê expressar a alma em português
se maior expressão de alma foi já exposta
na Ode Marítima de qualquer Pessoa? — aqui, Álvaro de Campos.
Havia que escolher uma língua entendida por mais do que um só,
apesar de que se se for um é-se só.
De que lhe falo?
Do óbvio. De que falamos todos nós mesmo negando,
mesmo arreganhando o dente na sua falta?
Aconselharam-me que o amor está em nós,
que não vale a pena buscá-lo no outro sem o ser primeiro em nós,
os que desatamos a correr pela vida fora,
aventando (fora), como se trata o osso já descarnado.
Mas o meu cão diz-me o contrário da saudade — a saudação —
que é no toque que lhe dou que ele existe;
e apenas nesse reflexo físico logo é, logo ama, logo lambe, logo cama.
E nem isto preciso repetir, pois Oscar Wilde destilou-o
na sua prosa poética, dando voz à água cristalina
na qual Narciso se embebedou de si porque bebia outro,
nem Narciso sem esse outro se revia.
Amava-se a si próprio? O seu reflexo.
E bêbado sozinho é igual a morto.
Sem si, o que seria de mim?
Talvez nem soubesse que o eu existia,
sem o agá mudo, surdo e cego da hexistência.
Seria a esitação de mim próprio.
E se me lê, não me está lendo.
Está nas minhas palavras bebendo o chá das cinco,
e a sua mente ausente na torre do relógio
de bi e lógicos ponteiros. Pois que interessa o segundo,
a centésima ou a milésima, se você nem me vê primeiro
cegando? Na língua que falo agora sem agá: chegando.
E nunca fui corredor de fundo.
Só me afogo.
No superficial.
No fim de mais um arbusto de verdes palavras
— de que cor são todas as palavras se não verdes? —
exponho-me e não me exponho nem um pouco,
à espera e à medida
que a sua tesoura de lâminas bi e logicamente aguçadas
me poda. Na língua que falo agora sem agá: me phoda.