Tuesday, 29 January 2008

Pós Amo-te

Poema de capa

 

Não me compres nem me abras.

Nada do que contenho te serve,

tampouco me serviu.

 

 

 

 

 

Também Adolf foi amado pela mãe

 

"Amo-te", para que o saibas,

porque posso cobrar-te dízimo

ou convencer-te

a dizimarmos, amo-te.

 

 

 

 

 

Arde, David, arde

 

Aprendi, no concerto íntimo de David Byrne,

o público pedindo o som de Talking Heads,

essa regra azémola de mercado,

de dar à gula doce,

em lugar dum só novo ré,

por menor que fosse, amo-te.

 

 

 

 

 

Mitos fundadores

 

A Eneida, Os Lusíadas e outros mitos fundadores,

por seguro, movem-se nos pântanos da Bíblia,

e que Vonnegut expressa tão bem:

 

Conte-se história elogiosa e, por mais absurda

que seja, gerará crentes nesse além.

Ó dores!  Amo-te.

 

 

 

 

 

O Segredo *

 

* À venda nas melhores livrarias perto de si **

** «Si». Abreviatura para «conteúdo do seu porta-moedas».

 

É segredo para ti: cultivar o bem dá retorno?

(Enquanto o cultivas.)

Fez-se uma milionária vendendo-o em embrulho

espalhafatoso como segredo: amo-te.

 

 

 

 

 

Interrogação ao absurdo

 

Se ias sentado no eléctrico ao lado da moça,

e se o teu desejo era proporcional à tua face,

porque terás pensado que exibir o dedo médio

e restantes dedos encolhidos roçando a calça

te daria melhores hipóteses do que o verbo,

amo-te?