Lisboa, 24 de Janeiro de 2008.
Abri a revista Visão de uma colega. A visão da colega está boa. Falo do sistema óptico. Reservo-me sobre o metafórico.
Por defeito, quiçá de canhoto, de gene árabe teimoso ou de tonto, folheei-a da página última para a frente. A poucas páginas do fim inicial, vi-te erecta em fotografia. Titulava-te a foto “Cultura / Cinema”. Em subtítulo o teu nome “Catarina Ruivo / A realizadora quis fazer / um filme sobre / a capacidade de mudar / – de vida, de política / e de margem”. Quis ou fez? No corpo do artigo revela-se que a estreia é hoje. Por isso iniciei esta carta com aquela data.
Aos 36 anos ainda tens cara de Catarina. Gostei do sobretudo à Corto Maltese. És moça, de cabelo curto. E realizaste uma curta. Esse corte de cabelo em estilo de mulher prática vi-o também nas fotografias de Abril de 1974. Tem um quê de socialista-progressista. Nada de anarca.
A camisola amarela de gola alta emerge bem dos fundos da tua alma. Dizem que é cor de criatividade. Pelo menos deve-la ser de bondade, de geração de vida à superfície terrestre.
A pose é propositada. Foto tirada de baixo para cima, fiel cópia de propaganda marxista-leninista. A tua mão direita que aferroa a tira da mochila vermelha exibe um anel grande e aparatoso. Era da Júlia, tua avó, madrinha minha?
Abandono agora a fotografia. Repensar-te fez-me volver 22 anos no tempo. O meu último verão no Luso, habitado nas traseiras da Farmácia Ruivo. Namoravas o enfant terrible daquelas paragens. E que calmas que eram, aquelas, paragens.
Exibias uma personalidade desprendida, decidida, conflituosa, e contudo meiga. Talvez daí a escolha do namorado, se é que houve escolha, mesmo se não conscientemente controlada. Em retrospectiva faz sentido, tenha sido escolha, tenha sido não.
Confesso agora que a minha adolescência não resistiu ao teu charme, dependurado em forma de bikini que secava. Nem garanto que o adulto lhe resistiria. Cheirei-o e não devo ter cheirado algo além de sol, água e cloro da Grande piscina do Hotel. Cheirei nada teu, mas o gesto a algo cheirava.
Recuperando a fotografia, não se distinguem bem os teus olhos castanhos. Eram tão intensamente vulgares que eram belos. Por tua causa, o nome Catarina ainda me apraz. Deus manifestou-se e deu-me sobrinha de mesmo nome, de olho igual, diria um eu se convertido em ortodoxo. O teu nome deriva da czarina, n’est ce pas?
Durante o recurso à memória daqueles tempos, senti a leve paixoneta recirculando no sangue. Ah, que coisa boa. E triste confesso que a paixoneta já se foi; de leve vem, breve se esvai.
Aproveito a sazão e prossigo com as confissões: não vi a tua curta-metragem, ainda, não vi a tua primeira longa, André Valente, ainda, nem, ainda, a noticiada, Daqui P’rá Frente. Dá ares de militarista ou pelo menos de militante com -ista, não é?
Fui informado dos prémios atribuídos a André. Senti-me orgulhoso sem fundamento.
Na TSF online há entrevista registada que vou ouvir com atenção. Que dirás? Que não dirás? Levarás a tua avante ou levou-te o entrevistador pelas suas ruas e manifestos?
Volto ao artigo da Visão. Citas Ruy Belo: “a minha forma de morrer é deixar cair ambos os braços.” Deixar cair os braços bastaria. Mas Ruy Belo diz que são ambos. Referir-se-ia a braços mentais também? Pois sei o que é. Deixei ou deixo cair várias vezes ambos os braços, ora à força de gravidade ora à de preguiça, ora por constituição anímica ora por anemia. À luz da frase de Ruy Belo, já morri tantas vezes dessa forma. E ele que faleceu de facto, de braços e bruços... Soube-o de fonte noticiosa, tal como agora soube de ti.
Se já a paixoneta passageira me havia lembrado de Hemingway, a morte do Belo encaixou-o definitivamente neste momento. Será que Papa Hem estava errado, e que afinal nem todos, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser quebrados? Louve-se a vontade férrea, metal deficiente nos anémicos.
Gostei que tivesses “roubado” a cena de Corto Maltese e Rasputine dançando para a tua película. Usaste mesmo o termo roubar? O jornalista utilizou aspas. Se nunca responderes, assumirei que sim. Também o uso. Nunca tomo algo emprestado. Roubo. À colega que comprou a revista, roubo por vezes bolachas. Roubo porque nunca as devolvo. Nunca as mesmas. E furto-me a mais exemplos.
Há um travo a mito pós-revolução na tua história filmada, de quem nunca a viveu, da qual apenas ouviu os testemunhos directos, logo de frases, ideias, ideais e imagens escolhidas por emblemáticas. Não sei. Há um travo.
Termino com um beijo.
Talvez nos cruzemos pelas ruas do Bairro Alto um dia desses, onde laboro.
Cumprimentos ao tio Carlos, à mãe Graça, às gémeas tias Nené e Jajão.
Enquanto te escrevo sobre isto em estado morno, todo um mundo borbulha lá fora de outros aquentamentos.
Um beijo.