Thursday, 2 November 2006

Um projecto de pessoa - Sexto Acto

Um projecto de pessoa


 


 


Sexto Acto


 


 


 


Estamos no símbolo sexto da numeração árabe, sexto mês, no Yin desta gravidez que se espera seja regida pelas leis da Harmonia até ao seu Yang, símbolo nono, que fechará o primeiro ciclo de tantos outros deste nascituro. Ciclos esses que se esperam regidos, outrossim, pelas leis da Harmonia – por vezes encontra-se tanta alegria numa ilusão – ou pelas epopeicas leis da Filarmonia! 


 


O espaço é cada vez mais exíguo neste primordial útero, fruto da fonte ininterrupta de nutrição de que é vítima ou beneficiário este humano rebento na sua fase aquática. Fruto da fonte...


 


Este ser, esta física expressão de uma massa de factores que transpassam o próprio ser, esta consequência e já tanto causa começou a sonhar. O cérebro desenvolveu-se até esse ponto. Que ponto? Será aquele em que o subconsciente está activo e absorve informação do exterior, adicionando-a ao conto de embalar, essa história tão convite para o descanso que é o sonho? Por certo ou apenas por sorte ainda é cedo, neste caso específico e distinto, para falar de pesadelos, em que receios continuamente cozinhados em fogo lento no subconsciente podem invadir o espaço lato, tão vago, do sonho. Sim, a ansiedade do que o por resolver nos imprime, comprime e oprime expressa-se.


 


Nada do nada veio. Ao conceber o Tudo por observação, mas em mera palavra,  Nada surge com um conceito forçado por oposição a tudo.


 


E o bebé não entendia poesia


como ela é conhecida desde um doravante,


de signos, de forma escrita,


de toda essa panóplia fruto


do estudo do linguista.


 


O bebé era apenas poesia,


e respirava-a, no uso genético


dos seus órgãos de poética.


 


Percussão – som primordial dos passos do caminhante, tronco oco


Cordas – arco e flecha


Sopro – vento na entrada da caverna, na árvore de pica-pau perfurada, cana perfurada


Piano, órgão – combinação sofisticada dos acima


 


Económico, o aparelho vocálico-respiratório-alimentar do homem.


Homus economicum cantat.


 


O eco é eis-me aqui.


Se faz eco existo, logo verbalizo.


 


O adulto pensando que não gostava de poesia, compondo odes do engano, do comércio, do sangue, do poder, de ser deus, cantado por outra poética.


 


A onda poética do riso e do choro.


 


As estrofes da memória.


 


Tem piada... Rimaremos mesmo com todas as rimas dos outros?


 


A poesia da matemática, a tal que, contendo-os, desconhece a existência dos signos que lhe foram atribuídos como sendo sua propriedade.


 


Poesia de amar tudo e todos por falta de amor próprio - cantiga de amor,


Poesia de amar um pouco por um pouco de amor próprio - cantiga de escárnio


Poesia de amar nada por excesso de amor próprio - e mal-dizer.


 


Sem antrópodes, deserto. Revigorada flora, sem homens.


O fim do mundo é tão só o início de um outro, mesmo sem mim como me penso.


 


Desmaio-me, e por isso me desentendo (ou distendo-me?)


 


«A beleza será CONVULSIVA ou não será nada.»


                                           André Breton


                                                            î


Sinto saudades tuas quando te abraço, Nadja.