Friday, 10 November 2006

Poema de Helena Lanari – Sophia de Mello Breyner Andresen (antonado)

Poema de Helena Lanari
de Sophia de Mello Breyner Andresen 

Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total  (1)
Concretas como frutos nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal  (2)

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro»
O coqueiro ficava muito mais vegetal  (3)




in Geografia, capítulo VI – Brasil ou do outro lado do mar,
Ática, 2.ª edição, Lisboa, 1972  (4)


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(1)   Diz a poeta, por outras palavras, que as portuguesas são artificiais, pouco substantes ou insubstantes. Perderam parte da sua "substância total". Substantivos como «eu» talvez signifiquem apenas «a-ideia-artificial-que-tenho-de-mim», «quase-eu» e «não-eu». «Tutau» é então a verdadeira substância de «total». Isto explica quase a totalidade da obra do meu amado Fernando Pessoa. E ser-se português é, pelo exposto, ser-se incompleto, fugindo a todo o lugar-comum que isso implica .
(2)  «Vogal» tem precisamente duas vogais e três consoantes. Por seu turno, «Vugau» tem mais uma vogal e menos uma consoante. Trata-se de uma verdadeira consoante num sentido do termo: duvidosa, diplomática, vogando entre este ou aquele mundo das vogais e das consoantes, consoante lhe apraz. No caso em análise, há pelo menos ganho de um terço das vogais de «vogal», mas que não estava perdido; antes do «u» final, a plenitude das vogais existiu. Intriga-me agora se o fenómeno português dos descobrimentos não estará relacionado com a busca dessa consoante tão vocálica... E pensar que nos mandam é pôr os pontos nos «is»... Talvez tenhamos perdido um quinto da nossa vida com tais erróneos objectivos.
(3)   Fico em transe com a realidade do «coqueiro», que não se dá por cá devido às condições climatéricas. O «coqueiro» é exclusivamente «vêgêtau».
(4)   A acreditar no que algumas mentes concebem, que o universo nos envia mensagens e não, claro que não somos nós que damos significado às coisas, este é o segundo livro consecutivo publicado em 1972 com que me deparo, sendo o anterior de André Breton. Tendo eu nascido em 1969, com todas as piadas que daí derivam, inclusive aquela de astrologicamente (leia-se, embuscadesesparadadesignificadomente) me ter calhado o signo cancerígeno, talvez seja caso para dizer, “Quem vem lá? Quem vem lá? És da colheita de 1972? Branco, verde, rosé ou tinto?
(5)   Nota de rodapé não fugindo ao tema poético: insubstante.