Sunday, 2 July 2006

Portugal versus Holanda, uma perspectiva diferente

Falou-se muito, um pouco por todo o mundo, da matreirice portuguesa após o jogo contra a Holanda. Apontem-nos uma nação que não apresente um episódio negro. Quanto à pirataria holandesa e o seu ataque a colónias, está tudo muito bem documentado.


 


Não acreditei no que estava vendo durante esse jogo; por certo não era futebol. Talvez fosse literatura versus pintura. Se bem me lembro, a batalha começou quando um Van Gogh atingiu um Pessoa, que mais tarde teve que abandonar o campo. Van Gogh, vendo que o árbitro mostraria cartões amarelos por quase cada falta, desatou a tropeçar sempre que desafiado, mesmo se nenhuma Pessoa lhe tocasse. Ambos os artistas perderam a cabeça perante tal desacerto.


 


O Pessoa que foi expulso primeiro estava já em delírio de loucura criativa. O árbitro era russo, e provavelmente um jogador de poker. Com um pouco de vodka, também ele perdeu as estribeiras. Passou a jogar às cartas. De que outro modo se rege uma disputa entre literatura e pintura? Pintando os livros? Escrevendo poemas nas telas?


 


Pessoa estava muito nervoso no início (no meio, no fim; é ser-se nervo este ser-se Pessoa) mas o golo demonstrou que lá atrás apenas Gogh defendia. Van estava medroso pois já tinham passado 16 anos desde que tinha pintado algo de valioso em Portugal. Depois apenas se viram heterónimos, e todos ficaram pasmados.


 


Premissa que vem no fim: idolatram-se miúdos de origem humilde e que enriqueceram depressa, tal como se idolatram navegadores de origem humilde em busca de enriquecer depressa, capazes das maiores barbáries mas sob a égide de uma bandeira, uma religião, e logo está tudo desculpado. São dos nossos. Os outros são os outros. Gloria ad aeternum.