Monday, 6 March 2006

Como vai isso? – Daiva Čepauskaitė


Como vai isso?


­− Óptimo, digo, óptimo.
Dormi bem.
Sonhei nada.
Acordei por mim própria.
Olhei o espelho.
Não vi nada de estranho.
Recordei-me de uma ou duas pessoas.
De uma ou duas não me recordei.
Limpei umas migalhas da mesa.
Encontrei uma passa.
Abri uma janela.
Senti-me feliz uma vez.
Infeliz duas.
Nada senti três vezes.
Pensei sobre o sentido da vida uma vez.
Sobre a falta de sentido duas.
Nada pensei três vezes.
Tossi.
Nada doeu.
Nada faltava.
Ninguém se preocupou comigo.
Vi as notícias.
Eles cortaram a fita.
Deram uma entrevista.
Bombardearam.
Duas crianças e um carro afogaram-se
(separadamente).
Falaram sobre o carro por mais tempo
Do que sobre as crianças.
Dei uma vista de olhos pelo quintal.
Dei uma vista de olhos pela carteira.
Olhei para o passado.
Deliniei as minhas perdas.
Regozijei-me com as minhas descobertas.
Inspeccionei os acontecimentos.
Contemplei o contexto.
Avaliei o objecto.
Descobri conexões.
Expliquei as razões.
Honrei os mortos com um minuto de silêncio.
Suspirei por causa do meu amante.
Pensei na minha mãe.
Mudei de roupa.
Cocei a cabeça.
Óptimo, digo, óptimo.

                                                            Daiva Čepauskaitė

* * *



Traduzido do inglês por António Dinis Lopes.
O original encontra-se em A Fine Line ­− New Poetry from Eastern & Central Europe,
Arc Publications, 2004, pp. 80-83