Monday, 6 March 2006

a minha criança nasceu [...] – Kristiina Ehin


a minha criança nasceu de telemóvel na mão

não conseguimos comunicar de outro modo

sou uma mulher racional

não acredito na teoria das batidas de coração

no fluxo sanguíneo falando em línguas

sou uma pessoa inteligente ­­− não acredito em leitura da mente

ou horóscopo

a minha criança nasceu quimio-biologicamente

cientificamente comprovado

 

a minha criança nasceu de telemóvel na mão

ligou-me

e eu disse-lhe para que viesse de cabeça primeiro

vem cá para fora

também houve lições de linguagem adequada ao telefone

queria que ela começasse a pensar de imediato

para não perder tempo precioso − meses do meu e do seu próprio

com pestanejar e chupar os polegares

queria que ela sentisse desde muito cedo

por debaixo dos seus pés

o doce sabor de estar no caminho de uma carreira

e não desperdiçar tempo precioso − meses

do meu e do seu próprio mas...

 

a minha criança nasceu à meia-noite

e não se mexeu

faltava-lhe algo

faltava-lhe o inexplicável nada

 

o telemóvel nas suas pequenas mãos

piscava vermelho como um farol

 

tinhamos embatido nos rochedos

 

                                                            Kristiina Ehin

 

* * *

 

 

 

Traduzido do inglês e estónio por António Dinis Lopes e Marianne Reinsoo.

O original encontra-se em A Fine Line ­− New Poetry from Eastern & Central Europe,

Arc Publications, 2004

 

Link para curta biografia da autora (em inglês): http://www.estlit.ee/index.php?id=1142