a minha criança nasceu de telemóvel na mão
não conseguimos comunicar de outro modo
sou uma mulher racional
não acredito na teoria das batidas de coração
no fluxo sanguíneo falando em línguas
sou uma pessoa inteligente − não acredito em leitura da mente
ou horóscopo
a minha criança nasceu quimio-biologicamente
cientificamente comprovado
a minha criança nasceu de telemóvel na mão
ligou-me
e eu disse-lhe para que viesse de cabeça primeiro
vem cá para fora
também houve lições de linguagem adequada ao telefone
queria que ela começasse a pensar de imediato
para não perder tempo precioso − meses do meu e do seu próprio
com pestanejar e chupar os polegares
queria que ela sentisse desde muito cedo
por debaixo dos seus pés
o doce sabor de estar no caminho de uma carreira
e não desperdiçar tempo precioso − meses
do meu e do seu próprio mas...
a minha criança nasceu à meia-noite
e não se mexeu
faltava-lhe algo
faltava-lhe o inexplicável nada
o telemóvel nas suas pequenas mãos
piscava vermelho como um farol
tinhamos embatido nos rochedos
Kristiina Ehin
* * *
Traduzido do inglês e estónio por António Dinis Lopes e Marianne Reinsoo.
O original encontra-se em A Fine Line − New Poetry from Eastern & Central Europe,
Arc Publications, 2004
Link para curta biografia da autora (em inglês): http://www.estlit.ee/index.php?id=1142