Friday, 18 June 2010

Uma lágrima de Saramago

Toque-se agora toda a vuvuzela,
junte-se ao inferno os carrilhões de Mafra,
e bata-se as sacrossantas tampas de panela,
celebrando um ano novo por meio de um velho.

Enfim separou-se a tua Ibéria da Europa,
arrastada pelo oceano salgado fora
por um bando de estorninhos em desalinho,
à esquerda,
por um elefante amestrado e seu cornaca,
à direita,
e ao centro o cão Ardent ganindo, Caim, caim.

Hoje, e por tua conta,
se atirarmos pedra ao mar, flutua,
se riscarmos o chão, o risco perdura,
se construírmos passarola, de vontades voa,
e aprendemos a desmontar o cerco de Lisboa.

Neste ano da tua morte,
quem foi que nos disse, José,
que pai só se perde uma vez, Não sei,
Pois a tua ausência deixou-me objecto quase,
de lágrima-cão no olho. Hoje cega-se em branco.