Friday, 21 April 2006

Da poesia e sua origem – Teixeira de Pascoaes


O seguinte texto é a primeira secção da obra Os Poetas Lusíadas de Teixeira de Pascoaes, publicada primeiramente em 1919 e que terá escapado, pelo que li, a Fernando Pessoa, seu contemporâneo. Talvez por razões geográficas. O primeiro passou a sua vida sobretudo entre a cidade do Porto e S. João de Gatão. A inclusão deste texto nas minhas páginas de rede (webpages) não implica concordância da minha parte com o seu conteúdo. Aliás, eu discordo sobretudo de mim mesmo. De vocês, apenas não concordo. E quanto ao texto, é o da publicação de 1987 pela editora Assírio & Alvim, pontuação incluída. Os erros tipográficos deverão ser meus.

 

* * *

 

DA POESIA E SUA ORIGEM

 

Eu creio que a Poesia nasceu da Dança, como do movimento rastejado nasceu o movimento alado. A dança foi a primeira alegria do homem liberto, enfim, do velho orango das selvas, vendo, pela vez primeira, a Luz... Essa alegria naturalmente se exteriorizou em movimentos, rítmicos, derivantes dela própria, que é uma força sujeita, como todas as forças, às leis da Harmonia. O ritmo é a substância das cousas.

 

A dança foi o primeiro gesto livre do homem, a sua primeira atitude moral; a primeira expressão consciente e plástica das íntimas energias que trabalham o ser: a esperança criadora e a lembrança que dá fixidez e corpóreo relevo à criatura...

 

Aquela força, como a da lembrança, passando pelas suas fases materiais, tornou-se espiritual no homem; ressurgiu das trevas.

 

Esta ressurreição esplendorosa celebrou-a a Esperança, imprimindo ao corpo em que despertara para a vida, os musicais e quase aéreos movimentos da sua actividade. E então as Ninfas, coroadas de rosas, bailaram à sombra das árvores sagradas...

 

A dança é mocidade, excesso de vida a esgotar-se em fugas que obedecem a um íntimo e lógico sentido. Foi a primeira expansão de uma alma propagada a um corpo, obediente a uma disciplina, agindo dentro dum espaço definido que impõe uma atitude completa, em equilíbrio, às suas linhas agitadas. A dança foi, portanto, a primeira Arte, a primeira linguagem transcendente e silenciosa do homem; o seu primeiro desejo sobrenatural, o seu primeiro sonho do Outro Mundo, indeciso ainda, esboçado apenas em curvas fugidias, não fixadas pela cor, pela forma, pelo som ou pela palavra: pintura, escultura, música e poesia...

 

Mas os movimentos silenciosos da dança, começaram a ganhar voz, dilataram-se no Infinito. A alma, tentando voo nos seus bailados, eleva-se enfim da terra, nos seus cantos. A poesia primitiva é quase um bailado de palavras:

 

Figueiral, figueiredo,

No figueiral entrei,

Três niñas encontrara,

Três niñas encontrei...

 

Esta remota canção galaico-portuguesa é uma verdadeira dança, em dois tempos. Tem um ritmo pendular, que é dado por um movimento para a frente:

 

Três niñas encontrara...

 

e outro movimento para trás:

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Três niñas encontrei...

 

Escrito ainda num português indeciso, a querer destacar-se da língua-mãe, este canto matutino da nossa alma, revela a transição dos movimentos materiais da dança para a sua expressão alada e musical. É um jogo de simples sons articulados, onde o sentimento aflora num primeiro alvor pálido e frio. Lembra um vagido infantil contendo, na sua indecisão, a luz futura da Palavra, a grande libertadora dos aflitos. O maior peso da Dor foge em palavras. Confessamo-nos para que o remorso nos perdoe... A palavra de Beleza liberta; cria novos estados sentimentais, diferentes dos que foram criados pela dor. A palavra liberta e cria; é a própria terra do Outro Mundo...

 

Mas as palavras, bailando em graciosas teorias infantis, ganharam um sentido independente e superior. O seu bailado interiorizou-se, transcendentalizando-se em movimentos voluptosos para o Amor e em movimentos espirituais para Deus, quando o amor se purifica e diviniza.